Análise | Música

Chico Buarque: da riqueza dos acordes à polêmica dos versos

Trajetória do artista é revista em trabalho acadêmico e em discussão em torno de recente canção do álbum Caravanas.

Imagem: Capa de “Caravanas”, de Chico Buarque – Divulgação

O cantor e compositor Chico Buarque, apesar de sua natureza reconhecidamente introspectiva, foi novamente colocado à baila nas últimas semanas em função de dois acontecimentos de origem distinta, mas que se entrelaçam: a carreira, a biografia e a trajetória do artista diante da Música Popular Brasileira.

No primeiro deles, numa chave crítica mais positiva, um estudo do pernambucano Luciano Sales varreu mais de 100 mil letras disponíveis em sites de cifras de cerca de 500 artistas para estudar a quantidade e a complexidade da produção de acordes na música brasileira. Como aponta matéria do UOL , Chico Buarque aparece como o artista que mais gravou acordes distintos na carreira, seguido por Djavan, Ivan Lins, entre outros. Ed Motta se destaca pelos tamanhos de acorde, e Lenine, pela raridade dos mesmos. Em que pese vários problemas de ordem metodológica desta pesquisa, apontados tanto pela matéria citada quanto por  esta outra mais recente , uma das conclusões do trabalho  é a percepção de uma decadência na complexidade destes acordes e, consequentemente, uma maior “pobreza” da MPB.  

No segundo, em chave crítica mais negativa, Chico Buarque foi questionado porque compôs para os versos da canção Tua Cantiga, presente no novo álbum do cantor e compositor, Caravanas, um trecho que diz “Quando teu coração suplicar/Ou quando teu capricho exigir/Largo mulher e filhos e de joelhos vou te seguir”.  Causou polêmica nas redes sociais.

O que chama a atenção nos dois casos é a tentativa quase sempre formulaica de se chegar a uma explicação que pode ser bem mais complexa. Se, no primeiro caso, até por se tratar de um estudo acadêmico, as imperfeições e nuances da hipótese levantada  se expõem – até porque a obra de Chico Buarque não é a única analisada no trabalho –, no segundo caso, em muitos comentários, optou-se por um Fla x Flu típico dos últimos tempos internéticos em que não se procura entender o argumento ou os argumentos alheios – apenas buscar premissas que justifiquem o próprio.

Assim, se, de um lado, existem aquelas pessoas que veem no trecho do verso desta canção de Chico Buarque uma referência a um tipo de machismo que deveria estar em desuso nas letras do cantor – precisamente por sua biografia e cancioneiro frequentemente tão próximo do  feminino –, por  outro, estão aquelas que lembram que o eu-lírico da canção nem sempre é o do artista que canta.

Tudo bem, o argumento acima, então, reitera que pelo menos uma figura com o arcabouço de Chico Buarque deveria estar mais atenta ao que diz. Mas, novamente, por outro lado, talvez estejamos mesmo em meio a uma crise por estratégias tão formulaicas que as metáforas não são consideradas – especialmente quando embutidas na canção em que o elemento da letra não é o único que deve ser levado em conta. Afinal, tem-se a voz e, sobretudo, a melodia. Tanto Caetano Veloso, como  Guto Leite, poeta, compositor e professor de literatura brasileira da UFRGS , problematizam nesta direção, apontando elementos do lundu, da síncopa. Leite diz que “a única referência ao gênero masculino na voz da canção é no verso ‘Mas teu amante sempre serei’. Se pensarmos nesse esfacelamento, os polêmicos versos “Largo mulher e filho/ E de joelhos/ Vou te seguir”, que representariam abandono pela figura paterna, podem também ter sido entoados por uma mulher ou pelo amor a uma espécie de santa, não um amor carnal.” Além disso, a canção abre um álbum e talvez devesse ser debatida nesse contexto maior da obra – como também faz o professor.

De toda forma, fica evidente pensar a poesia, a canção, para além de elementos da literalidade, considerando a potencialidade da metáfora.

Nísio Teixeira
Professor do Departamento de Comunicação Social da UFMG
Pesquisador do GRIS



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