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Coloque-se no seu lugar!

Diferentes leituras de um mesmo acontecimento povoam o noticiário e, principalmente, as redes sociais digitais nos últimos dias. Estamos falando dos rolezinhos – onda de encontros realizados em shoppings centers por grupos de jovens da periferia e previamente programados pelo Facebook. Apesar do foco estar sobre a cidade de São Paulo, Belo Horizonte já foi palco de alguns rolés. Em agosto de 2013, ao menos três encontros dessa natureza ocorreram na capital mineira. Em São Paulo, também houve registros de rolés em outros anos. Mas os recentes episódios na maior cidade do país ganharam um número considerável de adeptos, se tornaram mais frequentes e viraram assunto nacional.

Na maior parte dos rolezinhos, não houve saque, nem depredação, nem sequer registro de roubos. Mas, apesar disso, assustaram muita gente. O que soa um pouco estranho, pois encontros em massa nos shoppings de São Paulo não são novidade. Há pelo menos cinco anos, calouros da USP costumam se reunir nesses locais com o intuito de comemorar o ingresso na maior universidade do Brasil – frequentemente com apoio das administradoras e até das lanchonetes dos centros comerciais. A grande diferença entre os dois fatos é que a maior parte dos alunos da USP não é negra, nem favelada e bem-vinda nesses centros comerciais. No rolé da USP, são apenas estudantes. Já o rolé da periferia é coisa de baderneiro.

O acontecimento suscitou narrativas – na maioria das vezes controversas – e levou a reflexões que o transbordam. Em meio às diferentes leituras, uma questão fundamental se coloca: o que realmente querem esses jovens?

Esse coletivo de garotos e garotas da periferia é hoje um grupo digitalmente incluído. Com acesso intenso à internet e, consequentemente, às redes sociais digitais, as fronteiras do mundo desses jovens se alargaram. Vivenciando o aumento de renda (e consumo) do país na última década, aqueles que estiveram historicamente à margem percebem que podem ultrapassar as fronteiras social, econômica e culturalmente delimitadas. Com a avidez típica dos adolescentes, eles querem mais. Querem ser vistos, querem chamar a atenção, querem provar que têm poder de mobilização – mesmo que seja apenas para reunir uma galera a fim de dançar funk no estacionamento do shopping.

Como então não concluir que os rolezinhos são sim um ato político, mesmo que seus protagonistas não o percebam? Recorrendo à perspectiva de Jacques Rancière, a política ocorre no momento em que há um questionamento dos lugares e funções colocados como consensuais por uma ordem hegemônica e policial. E, para o filósofo francês, polícia não se resume apenas ao sentido que costumamos dar à palavra, mas tem uma dimensão maior: diz respeito às configurações e aos dispositivos que definem o lugar nos quais os corpos devem estar, suas respectivas atribuições e os sistemas de legitimação dessa distribuição. A polícia ordena os corpos; é a esfera organizadora que interdita a exposição do dano e o questionamento, ou seja, o fazer político.

Pois bem. Os rolezinhos são, por sua natureza, de caráter questionador, de recusa às proibições instituídas, de tentativa de apropriação do que não é permitido a esses jovens usufruir. Por outro lado, parece que uma lógica de caráter consensual dita a regra de que “shopping não é lugar para reunião desse tipo de gente”. Tal lógica se revelou nos narizes torcidos da classe média, no pré-julgamento por parte da segurança privada dos centros comerciais, pela repressão exagerada da PM. O que era subliminarmente naturalizado (shopping é lugar de gente branca, de classe média, com um bom dinheiro para consumir e não de favelado) foi legitimado – até pelo poder judiciário, por meio das liminares que barraram a realização de novos rolés em alguns locais. Do choque entre as duas lógicas, nasceu o tensionamento e todo o debate que temos presenciado.

Reforçando a dimensão da polícia (na perspectiva de Rancière), a nossa polícia (aparato do estado) prontamente trabalhou em prol da reafirmação dos lugares instituídos. A violência com a qual os rolezinhos foram reprimidos mostrou que, infelizmente, os instrumentos de segurança do poder público ainda não aprenderam a responder sem brutalidade àquilo que acreditam estar fora da configuração de uma “ordem estabelecida”. Foi assim também nas manifestações de junho de 2013.

Também semelhante ao que ocorreu nos protestos do ano passado, a repressão da PM deu ainda mais fôlego ao fenômeno e os rolezinhos já começam a se espalhar pelo Brasil. Segundo reportagem da Carta Capital, ao menos 17 eventos já foram marcados em diferentes cidades para este fim de semana. Além disso, a União de Núcleos de Educação Popular para Negras/os e Classe Trabalhadora (Uneafro) convocou um “Rolé Contra o Racismo” no shopping JK Iguatemi – um dos beneficiados pelas liminares que impedem os encontros.

O que vai acontecer daqui para frente só nos resta esperar para saber. No momento, é interessante continuar acompanhando os episódios de recusa às partes do comum outrora destinadas a esses jovens (ou a falta de uma parte). E todo questionamento nesse sentido parece ser altamente construtivo.

Comentário sobre os rolezinhos postado por um usuário do Facebook

Comentário sobre os rolezinhos postado por um usuário do Facebook

Foto: Joel Silva / Folhapress

Raquel Dornelas
Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UFMG
Pesquisadora do Gris/UFMG



Comentários

  1. Ricardo Duarte disse:

    Ok, Renné. Em alguns pontos talvez não me fiz entender. Evidente que não são “apenas jovens” (uma entidade separada), e nem existe ato programado. Talvez eu esteja falando de outro lugar. O acontecimento estimula o aparecimento de outras narrativas; convoca discussões e valores a estarem ali presentes. Mas é um acontecimento que ganha em sentido quando olhamos para o empírico. Refiro-me a maneira como os rolés na mídia “dão a ver” e provocam reflexividades e conversações entre esses jovens. E o acontecimento do rolé seria reflexividade de quê? O “muito mais” além de ser jovens (possibilidade de serem vistos além de si mesmos) parece que se completa quando olhamos para a cultura e para o momento vivido dessa juventude. E, nisto, importante conversar com eles, fazer pesquisa empírica – tentando se despir de algumas ideias pré-concebidas (como templo do consumo, segregação racial ou de classe). Bom, pelo menos foi assim que tentei trabalhar na minha tese sobre juventude rural e mídia. Indo lá e conversando com eles.

  2. Ricardo Duarte disse:

    Pessoalmente acho que são apenas jovens vivendo a experiência de sua idade. Vivi essa época de chegada dos shoppings em uma grande cidade, nos anos de 1980, e acompanhei essa discussão velha sobre “templo do consumo”. Quando jovem eu andava com turmas, fazendo barulho, como todo o jovem. Certo que a nova classe trabalhadora de hoje deseja experienciar elementos típicos da classe média tradicional, mas tenho dúvidas se esses jovens tinham consciência de questões como “templo do consumo”, “segregação racial e de classe” ou coisas do tipo. São jovens, apenas. Acho interessante a mobilização pelas redes sociais, os jovens organizadores dos rolés que se sentem agora celebridades, o batman dançando funk com os jovens em apoio aos rolés e até mesmo a infantilização do debate público (L.F.Pondé) que surge no momento em que as entidades e os manifestantes da classe média saíram em defesa da liberdade de expressão dos rolés.

    • Renné França disse:

      Ricardo, não acho que eles tenham consciência disso (e nem tem que ter). É o acontecimento que permite que a discussão se abra dessa maneira. Não é um ato programado e objetivo de protesto, mas que está sim inserido em um contexto de uma sociedade atual. Como você escreve, “são jovens”. Mas nunca “apenas”. Pois os jovens – como todos nós – estão sempre refletindo a realidade em que se encontram. Junto de “jovens” vem agregada toda uma série de valores e vozes de uma dada época. Neste sentido, não acredito ser possível colocar as coisas como se os jovens fossem uma entidade separada. Conscientes ou não, eles possuem papel fundamental na compreensão destes “templos” (não é curioso que os líderes se tornem um tipo de celebridade local, tal qual os padres em suas paróquias?). Permitir perceber isso é uma das riquezas que o acontecimento rolezinho oferece, nos forçando a olhar para além das simplificações que o discurso tradicional costuma partir. Como gostamos de dizer, o acontecimento “dá a ver”. E estes meninos foram finalmente vistos. Não como jovens apenas. Mas como muito mais.

  3. Renné França disse:

    Ir ao shopping é, a princípio, uma atividade cotidiana. O que pode, então, fazer com que este ato ganhe contornos acontecimentais? Os rolezinhos rompem com a expectativa do que é um passeio no shopping, ou do que deveria ser de acordo com os padrões da classe média. Conforme o texto explicita bem, trata-se de uma questão que passa pela segregação instituída de determinados espaços públicos (ou da definição do que é público e para que tipo de público). Ao comentar os motins de 2011 ocorridos em Londres, Bauman colocou a revolta dos jovens como resposta à violência de não terem acesso aos templos capitalistas. Não se tratam de miseráveis, mas de uma classe em ascensão que, apesar de ser colocada como motor do crescimento econômico, não tem permissão para ocupar os espaços simbólicos mais poderosos da sociedade de consumo. Raymond Williams já tocava no assunto em seu Cultura e Sociedade: apesar da classe média achar o máximo ser ela mesma e imaginar que todos querem invadir seu lugar, a classe operária não quer ser a classe média. Quer apenas ter acesso aos produtos consumidos pela classe média, mas mantendo suas próprias características culturais. O resultado é um tensionamento que racha o instituído e provoca a intervenção policial em nome da ordem. Mas ordem para quem?

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