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Don’t stop beliebing: celebridade, acontecimento e os públicos

Para discutir a relação entre acontecimentos e a formação de públicos, Márcio Simeone e Leandro Lima partem de fatos recentes que envolveram o astro Justin Bieber e ganharam repercussão mundial. Assim, os autores se propõem a analisar a seguinte questão: “Acontecimentos, intensas rupturas do viver cotidiano, afetam os sujeitos – fazem com que eles tenham uma experiência – e podem formar públicos que partilhem sentidos e valores que emergem do acontecido. Mas o que reverbera aos públicos já formados, como o fandom de Justin Bieber, quando irrompe um acontecimento da vida de seu ídolo?” .  Veja a seguir:

 

 

Em 2008 surgia na web um jovem que logo se tornaria o primeiro grande ídolo da música pop do século XXI: Justin Bieber. A estrela do pop mundial foi o primeiro de muitos sucessos da música que surgiram no YouTube. Bieber é um músico de certo talento, alguma beleza e certamente grande carisma, característica de grandes líderes, dos sujeitos que se posicionam no centro do poder – político, econômico, cultural etc. É, pois, célebre figura pública, uma celebridade, e agrega ao seu redor um séquito de fãs.

As celebridades são peças importantes na sociedade atual, influenciam gostos e desejos, se tornam alvo da atenção dos sujeitos. Elas nos afetam de tal forma que nos tornamos um agrupamento peculiar ao qual chamamos “públicos”, indivíduos que partilham um sentido comum em torno de algo ou alguém, que formam vínculos entre si e com aquilo que os afeta, com o que têm uma experiência singular. Podemos identificar estes públicos em suas manifestações de afeto, nos comentários em notícias relacionadas à celebridade da qual são público ou em encontros de pequenos grupos de fãs para trocar figurinhas, fofocas e momentos de seus ídolos.

Os fãs são apenas uma parcela do público de uma celebridade, que possui um tipo de experiência diferenciada em relação a outras partes deste público. Dentro dos fãs, destaca-se um agrupamento que tem uma experiência ainda mais particular: o fandom, uma dimensão dos públicos que se manifesta de forma incondicional, extremada até, em relação a seu ídolo. Membros de um fandom não conhecem limites: agem sobre a obra do autor e sua vida; criam histórias fictícias de amor; respiram os Reis e Rainhas deste reino. Justin Bieber tem um fandom particular: beliebers, uma junção do sobrenome do cantor com a palavra inglesa “believer” que significa “aqueles que acreditam em algo”. Beliebers acreditam em Justin Bieber, em sua figura pública, em seu carisma, em sua aura artística e em tudo que se refira a ele e suas características.

Acontecimentos, intensas rupturas do viver cotidiano, afetam os sujeitos – fazem com que eles tenham uma experiência – e podem formar públicos que partilhem sentidos e valores que emergem do acontecido. Mas o que reverbera aos públicos já formados, como o fandom de Justin Bieber, quando irrompe um acontecimento da vida de seu ídolo? Já há algum tempo o cantor tem se envolvido em polêmicas causadas principalmente pelo choque entre sua imagem atual – de ídolo teen rebelde – e suas primeiras aparições públicas – um jovem garoto cristão do interior do Canadá. Em sua passagem pelo Brasil em 2013, podemos encontrar uma cadeia de pequenos atos de rebeldia. Bieber apronta: cospe em fãs, frequenta uma boate de strip-tease, tem um vídeo divulgado por uma garota de programa brasileira, grafita (picha ?) um muro que não devia. Pouco depois, anuncia sua falsa aposentadoria – aos 19 anos. É um acontecimento – programado, uma jogada de marketing – que causa grande comoção no fandom até ser desmentido. Eventos como os do Brasil se sucedem em outros países até que no dia 23 de Janeiro Justin Bieber é preso nos Estados Unidos – preso de verdade, com direito a foto usando o icônico macacão laranja dos prisioneiros que Hollywood já nos mostrou várias vezes – por dirigir embriagado e sob efeito de drogas ilícitas. O acontecimento reverbera intensamente nas redes sociais: beliebers de um lado, defendendo veementemente seu ídolo, e os haters (pessoas cuja motivação de vida na web está na manifestação de ódio a figuras públicas) de outro, criando até uma petição online para que ele fosse deportado dos EUA.

A reação do segmento mais ativo e mobilizado do público de Bieber nos chama atenção. Beliebers já são conhecidos na web por “comprarem briga” com qualquer um que diga algo de estranho sobre ele – até a Rainha dos Baixinhos já sofreu uma enxurrada de mensagens de beliebers. Um acontecimento gera conversações e debates, e quando está vinculado a uma figura pública, muito se diz sobre a influência que isto pode gerar sobre seu público, em especial quando este é formado em boa parte por crianças e adolescentes. A prisão de Bieber foi capaz de produzir muitos debates na mídia e nas redes sociais. Ainda hoje é possível ver em sites dedicados ao cantor declarações de artistas, familiares e até políticos, tentando redimir a péssima imagem que os atos de Bieber geraram (até a polêmica Sheherazade deu seus 20 centavos sobre o assunto!). E no fandom o debate é substituído por uma postura ainda mais defensiva – quanto ao autor – e ofensiva – quanto aos que teciam comentários jocosos sobre o fato.

A figura que ilustra este texto é o exemplo mais claro e assustador de uma reverberação do acontecimento sobre um público que vive e respira esta celebridade-acontecimento. A prisão de Bieber revela uma reação preocupante, em que a cadeia de eventos polêmicos, marcada pelo questionável anúncio da aposentadoria e uma prisão em solo americano, leva não ao questionamento das ações do ídolo, mas à afirmação da força dos públicos. Eles ainda existem como público belieber –circulam em torno do cantor – mas já desenvolvem uma espécie de fé inabalável – não exatamente em Bieber, mas nos vínculos que tornam beliebers capazes de aguentar qualquer coisa.

beliebers
Don’t stop beliebing, porque mesmo o acontecimento parece incapaz de abalar a força de um fandom.

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Quer aprofundar a discussão? Os textos abaixo são referências que foram utilizadas para formular este texto. Recomendamos a leitura e incentivamos para que deixem aqui seus comentários sobre o acontecimento-Bieber!

Sobre acontecimento e celebridades:

Acontecimento e Trajetória de vida: a construção de uma celebridade carismática. Paula Simões

A potencialidade do conceito de acontecimento para a análise da imagem pública das celebridades: Ronaldo, o fenômeno, e seu casamento com Daniela Cicarelli. Paula Simões


Sobre fandoms e haters:

Haters gonna hate1: como funciona o sistema de disputas entre fãs e antifãs da banda Restart . Camila Franco Monteiro. 

Dialogando sobre mobilizações de fãs e anti-fãs – Parte I. Adriana Amaral e Raquel Recuero


Sobre públicos:

A performance dos públicos midiáticos e a constituição social de valores: o caso Alberto Cowboy em Big Brother Brasil. Roberto Almeida. Artigo publicado no livro: FRANÇA, Vera Regina Veiga.; CORRÊA, Laura Guimarães (orgs.). Mídia, instituições e valores. Belo Horizonte: Autêntica, 2012.

Marcio Simeone Henriques e Leandro Augusto Borges Lima
Professor do Departamento de Comunicação Social da UFMG / Mestrando do Programa de Pós-graduação em Comunicação Social da UFMG
Pesquisadores do Gris/UFMG



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