Análise | Desastre socioambiental

Ecos da “tragédia em Mariana”

A análise mostra como o rompimento da barragem da Samarco, em Mariana, continua reverberando na sociedade, principalmente através de um trabalho de memória acerca do acontecimento e da vivência de suas consequências. Aponta a necessidade de um efetivo debate público, problematizando as questões coletivas expostas, que estão ausentes da cobertura midiática neste momento.

Imagem: Antonio Cruz / Agência Brasil

Imagem: Antonio Cruz / Agência Brasil

O rompimento da barragem da mineradora Samarco, em Mariana-MG, completou nove meses nesta semana (dia 05/08/2016) e ainda reverbera na sociedade, especialmente junto a sujeitos, coletivos e instituições mais diretamente afetados ou interpelados a agir e a dar respostas ao que aconteceu, ou àqueles interessados em discutir responsabilidades, consequências, evitar o esquecimento e debater mecanismos que impeçam a repetição de ocorrências semelhantes. É um acontecimento ainda em curso, que ecoa e afeta, faz falar, agir, refletir, revelador ainda de disputas de sentidos sobre o que aconteceu e sobre as questões coletivas ali implicadas.

Em um dossiê especial sobre a tragédia em Mariana, publicado em novembro de 2015, dias após o ocorrido, o GrisLab analisou alguns aspectos e questões importantes que a irrupção do acontecimento suscitava naquele momento (os enquadramentos iniciais, as omissões, as consequências imediatas, a mobilização desencadeada, os valores sociais implicados). A análise mais recente dos relatos jornalísticos sobre o acontecimento – que buscamos esboçar brevemente aqui – mostra um movimento dos quadros de sentido acionados para interpretar o acontecimento e uma disputa bem explícita de enquadramentos.

Inicialmente definido como “acidente”, o acontecimento passou, em seguida, a ser enquadrado como “tragédia” ou “desastre” – acompanhados ou não pelo qualificativo “ambiental” –, mas também foi nomeado como “crime” ou “crime socioambiental”. Essa mudança ou disputa de enquadramento, que aparece em discursos de algumas mídias e de atores da sociedade civil – inclusive moradores de regiões afetadas –, dá outra dimensão às consequências do acontecido (não limitadas ao impacto ambiental) e à discussão sobre responsabilidades. Afinal, a definição do acontecimento como “crime” retira a ênfase de acidentalidade ainda presente nas nomeações de “desastre” e “tragédia”, sinalizando que o rompimento não decorreu de causas naturais e, sim, por negligência tanto da mineradora Samarco quanto dos poderes estadual e federal – encarregados do licenciamento e da fiscalização.

Se um conjunto de ações passadas foram convocadas na narração inicial do acontecimento – contribuindo para esclarecer sobre as possíveis causas do ocorrido e reforçar os enquadramentos indicando negligências privadas e públicas –, os relatos jornalísticos mais recentes têm enfatizado as ações de sujeitos e coletivos sobre a memória do que aconteceu (o uniforme cor de lama de um time de futebol; documentários contando a história das vidas afetadas etc.) e, principalmente, as ações relativas ao futuro aberto pelo acontecimento ou a vivência de suas consequências. Dentre estas, a conclusão do inquérito que investigou os crimes implicados; o programa de demissão incentivada na Samarco; o descumprimento, por parte da empresa, das ações emergenciais que deveria ter realizado; a anulação, pela justiça, do acordo entre Samarco e poder público, por não ter tido a participação dos atingidos; a discussão de projetos de leis estaduais para regular a construção de barragens e a sua fiscalização etc.).

O impacto do rompimento da barragem em Mariana ainda ecoa forte, como se vê, em alguns aspectos. Há um campo de possibilidades abertas pelo acontecimento, dentre os quais a instauração de um efetivo debate público que problematize questões coletivas de fundo, que foram expostas. Dentre elas, a dependência deste modelo de desenvolvimento e de atividade econômica a que estão sujeitas determinadas regiões e os custos socioambientais aí implicados, a fragilidade do poder público frente ao poder privado no Brasil e a exigência cada vez maior de que organizações privadas considerem o interesse público, a transparência e a prestação de contas à sociedade em suas ações. É um debate, porém, que não tem alcançado a esfera de visibilidade da mídia hegemônica.

 

Terezinha Silva
Professora colaboradora do Departamento de Comunicação Social da UFMG
Pesquisadora do GRIS

 

Esta análise faz parte do cronograma oficial de análises para o mês de agosto, definido em reunião do Grislab.



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