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Intolerância x Respeito

Crucificação na Parada Gay: qual o sentido de tolerar o outro?

Na Parada Gay paulista realizada em junho, a transexual Viviany Beleboni causou polêmica ao simular estar crucificada. A encenação fortemente ligada ao imaginário cristão suscitou discussões entorno das causas LGBTs e do sofrimento dessas minorias. Como estratégia para chamar atenção para a questão, como será que este acontecimento mobilizou as pessoas?

Transexual simula crucificação na Parada LGBT de São Paulo. Fonte: G1

Transexual simula crucificação na Parada LGBT de São Paulo. Fonte: G1

A Parada Gay, maior manifestação de grupos LGBTs no Brasil, não tem causado grande controvérsia nos últimos anos. Entretanto, no evento ocorrido em São Paulo, neste ano, a transexual Viviany Beleboni desfilou crucificada e causou polêmica, chamando atenção para o sofrimento dessas minorias.
A imagem de Jesus crucificado é uma das mais conhecidas do mundo ocidental e, certamente, uma das mais importantes do cânone cristão. Ela representa a dor e o sofrimento de Jesus no momento de sua morte. Muitos são os sentidos que emergem a partir da referência a essa cena, exaustivamente reproduzida, apropriada e resignificada por artistas, cineastas, pintores etc. É comum observar a comoção causada pela cena. Tristeza, sofrimento, dor, humilhação, sacrifício, violência física e moral são as primeiras associações que fazemos ao olhar para a imagem.

A apropriação desse imaginário cristão durante a Parada Gay paulista foi estrategicamente pensada para alcançar visibilidade e chamar atenção da sociedade para o sofrimento das pessoas que se identificam como LGBTs (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros). A partir desse fato, que emergiu como um acontecimento e afetou as pessoas das mais diversas maneiras, podemos apontar traços importantes da sociedade em que vivemos. Grupos com crenças e valores diferentes se atacam e cometem agressões físicas, morais e verbais. O embate entre cristãos inflexíveis ao dogma da heteronormatividade e os grupos LGBTs se torna cada vez mais acirrado.

Apenas reivindicar por uma postura mais tolerante parece insuficiente para resolver a questão. A tolerância sugere algo que beira ao “suportar o outro”, uma espécie de aceitação mínima. Algo que não pressupõe um reconhecê-lo como igual, como sujeito digno. Uma postura que o deslegitima, que o considera inadequado, mas o suporta. Na nossa sociedade há uma tendência de pensar o outro como uma variante errada de nós mesmos, sempre partindo da nossa matriz de crenças e valores para defini-lo. Essa postura de tolerância é bem distante do respeito. Ela distancia os sujeitos e não favorece o estabelecimento de um desejo de relação. E o respeito, certamente nasce daí, de um desejo de se relacionar com este outro, de se aproximar dele. É preciso então, conseguir despertar esse desejo nos sujeitos que se envolvem nesses embates, desenvolver estratégias que favoreçam o estabelecimento de um desejo de relação entre os cristãos mais conservadores e os sujeitos LGBTs. Nesse sentido, por um lado, o desfile da transexual crucificada pode ter sido uma boa estratégia e por outro, pode ter contribuído para aumentar as barreiras que separam os religiosos radicais e os grupos LGBTs.

Algumas barreiras podem sim ter aumentado a partir desse acontecimento. Pois muitas pessoas (cristãs ou não) se sentiram ofendidas com a encenação. Entretanto, outras barreiras também podem ter se dissolvido ao provocar comoção e despertar solidariedade em relação ao sofrimento dessas minorias.
A imagem de Jesus crucificado nos afeta despertando, muitas vezes, grande compaixão pelo sofrimento que ele passou. Certamente, muitas pessoas repensaram suas posturas perante essa causa, refletiram sobre o quanto esses sujeitos sofrem, questionaram qual atitude tomar diante da questão. É aí que reside a riqueza dos acontecimentos e mais especificamente deste acontecimento: fazer emergir diversos sentidos que se entrecruzam acerca de um mesmo problema da nossa sociedade.

 

Maíra Lobato
Mestranda do PPGCOM-UFMG e pesquisadora do Gris



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