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Joga pedra na Geni!

(panelas e xingamentos para “combater” a crise)

O panelaço ocorrido em 8 de março – Dia Internacional da Mulher, em meio ao pronunciamento da Presidenta Dilma Rousseff, repercutiu intensamente na mídia. Ofensas e xingamentos intensamente proferidos e, para além de sua dimensão política, se enquadram nas relações de força e dominação de gênero. O acontecimento do dia 8 alcançou seu apogeu no domingo seguinte, 15 de março. Ocorrências estas que  tornaram-se objeto de análise da pesquisadora Vera França. Numa perspectiva comunicacional, de que modo se revela o formato, a circunstância e o conteúdo das manifestações de descontentamento?

 

No domingo, 8 de março – Dia Internacional da Mulher -, aqui do meu bairro, em Belo Horizonte, não ouvi nem tive notícias do panelaço. Mas nos dias seguintes, ouvi sim, um barulho intenso, desta vez repercutido pela mídia. E me dei conta de que esta última (sobretudo a mídia tradicional) sabe ser bem mais estridente que qualquer panela.

O acontecimento foi não apenas repercutido, mas também muito debatido nas redes sociais ao longo da semana. Não é preciso repetir aqui as diferentes análises que circularam a esse respeito; interessa-me, numa perspectiva comunicacional, atentar para o formato, a circunstância e o conteúdo das manifestações de descontentamento. Elas aconteceram no horário do pronunciamento da Presidenta; a simultaneidade da manifestação, articulada no espaço das redes digitais, indica duas coisas.

1º) os manifestantes não estavam dispostos a ouvir o que estava sendo dito; a posição prévia era de fechamento ao diálogo, não tiveram paciência e/ou abertura para apreciar informações e argumentos.
2º) não há nenhum respeito à figura da mandatária máxima da República. Esse desrespeito não é novo; se fez presente, entre outros momentos, em cerimônias oficiais da Copa do Mundo de 2014.

Pasmem-se os desavisados: foram xingamentos do chamado baixo calão endereçados à pessoa da presidenta. Foi chamada de puta, filha da puta, vadia; foi mandada tomar no cu. Um xingamento que tem uma dimensão política sim, e se enquadra nas relações de força e dominação de gênero. Mais conhecido como machismo. Um discurso que, neste caso, atinge muito menos aquele a quem é endereçado do que marca aqueles que o proferem. Deixa muito mal na fita a elite bem educada brasileira.

O acontecimento do dia 8 se desdobrou e alcançou seu apogeu no domingo seguinte, 15 de março. Ao longo do dia, boletins e flashes televisivos eram emitidos a cada 40 minutos por algumas redes, numa ampla cobertura e visibilidade. Repórteres acentuavam o caráter pacífico das manifestações, bem como a extensão do descontentamento com o Governo e com o PT. Nos dias seguintes, nas redes, a imagem de vitória dos descontentes foi ladeada (não sei se chegou a ser ofuscada) por aspectos não tão pacíficos dos manifestantes, e por elementos que, mais que ao governo, ameaçam a estabilidade do país e a democracia. Não me refiro às faixas de abaixo a Dilma, abaixo o PT, ou pelo impeachment, mas às outras faixas, falas, ações: de apoio ao golpe militar e volta da ditadura; de aplausos a ex-policial envolvido em mortes e tortura; de perseguição (e risco de linchamento) de pessoas com camiseta vermelha (com ou sem sigla do PT) e de repórteres de mídias alternativas; pelo femicídio . E, de novo, grosseiros e raivosos xingamentos sexistas em faixas e performances musicais: “Dilma vai se foder”, “Quem se habilita a comer a Dilma sem birita”…. E por aí afora.

Trabalhar com slogans, criar estereótipos e figuras do mal são procedimentos utilizados na política e pelos políticos desde sempre. Do nosso lugar de pesquisadores da realidade social, importa “ler” o que eles dizem dos grupos que os utilizam e da sociedade onde eles se situam.

Para além do conteúdo mais propriamente político – que é de fato o que move este momento (inquietação ou discordância com a política econômica; rompimento do pacto de classe; crítica ao PT e sua política social; disputa da hegemonia política do país) -, é importante chamar a atenção para o quanto essa investida política compensa e/ou camufla a inconsistência de fatos, bem como o direcionamento deles, com apelos a figura de profundo reacionarismo e intolerância.

E aí, embora o ódio de classe seja a mola propulsora, é a tecla de gênero a mais fácil de acionar.

Joga pedra na Geni!
Joga pedra na Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!

Vera V. França
Professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG
Pesquisadora do Gris/UFMG



Comentários

  1. […] e adjetivos sexuais infelizmente têm sido uma tecla recorrente nos ataques a Dilma (já comentamos isto em outra análise aqui), um ataque que ultrapassa o exercício da função política e mira sua condição de gênero. Por […]

  2. Terezinha Silva disse:

    Gostei muito da análise dos protestos e reações violentas à presidenta da República pelo viés da questão de gênero. É algo realmente muito presente nos discursos e posicionamentos de muitas pessoas que a criticam, mas nem sempre é explicitado como sendo uma forte motivação para a critica, ou, neste caso, desrespeito e xingamento à ela. Se olharmos bem, em vários momentos ou casos, muitos dos que a criticam não suportam a ideia de serem “governados” por uma mulher.

  3. Gáudio Luiz Freddi Bassoli disse:

    Quando as manifestação do dia 15 reverberaram, a blogueira negra Maria Rita Casagrande repercutiu no Facebook ter acontecido um comentário misógino de uma página de esquerda, Anarcomiguxos, numa matéria sobre “as gatas do protesto”.

    Queria dizer que me surpreendo, mas nem me surpreendo mais: as pedras na Geni vêm de todos os lados.

  4. Nísio disse:

    Professora Vera,

    Ante a inquietante e pertinente observação crítica, fica já uma dentre várias perguntas: esse é um movimento que tem sua origem ainda dos rescaldos e espasmos eleitorais passados ou que se abre? O tempo – a curto prazo – dará as próximas pistas…

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