Análise | Gênero e sexualidade Poder Política Vida social, normas e valores

Misoginia e desrespeito

O adesivo ofensivo da presidenta do Brasil

A análise observa a comercialização de um adesivo para carros em que o rosto da presidenta Dilma Rousseff aparece em um corpo de pernas abertas, a ser colado no tanque de combustível. A imagem mostra o quanto se confundem – ou se fundem – as tentativas de desqualificar o exercício do poder presidencial por Dilma e os ataques ao seu gênero.

“Criar acontecimentos” é uma técnica conhecida para ganhar visibilidade, sendo amplamente utilizada no contexto de disputas, campanhas ou mesmo empreendimentos de projeção pessoal. No atual quadro brasileiro, de contestação do governo (e da reeleição) da presidenta Dilma por parte do PSDB (e de aliados), da mídia tradicional e de setores conservadores da sociedade, várias tentativas de projeção midiática têm sido lançadas, com maior ou menor êxito. Vide, por exemplo, a controversa viagem à Venezuela, de apoio aos opositores do presidente Maduro: oito senadores brasileiros, capitaneados por Aécio Neves, empreenderam uma frustrada iniciativa de visita a presos políticos no país vizinho. O pseudoacontecimento nos revela o horizonte de significados que se pretendeu evocar: uma auréola de paladinos da liberdade, matizada de solidariedade e dinamismo para os membros da comitiva; um reforço e uma estocada na imagem bolivariana do governo brasileiro.

Na mesma linha de “ataque”, mas de maneira diversa, o lançamento de um adesivo da presidenta Dilma Rousseff para entradas de tanque de combustível em automóveis, comercializado através do site MercadoLivre (e amplamente veiculado pelas redes sociais), não surgiu como uma proposta de acontecimento – embora tenha se tornado um. Na esteira da campanha de desqualificação e difamações sofrida pela presidente, essa teria sido mais uma iniciativa de deboche – algo para fazer rir alguns, na linha do riso sarcástico e derrisório que corrói as bases de poder de seu alvo (também uma antiga ferramenta política).

Embora muitos outros adesivos pejorativos circulem com imagens dela, esse foi muito além: mais do que o corpo desnudo, de pernas abertas (onde se insere a bomba de combustível), que foi colado ao dorso da presidente, o adesivo desnudou um caldo feio e tenebroso do machismo brasileiro. Buscando ofender a chefe da República em um suposto “protesto diante do aumento do preço da gasolina”, a metáfora do “pernas abertas” reforça e vandaliza a imagem da condição sexual da mulher, tornada aparelho, lassidão, coisa exposta e usável, para não dizer “naturalmente estuprável”.

Metáforas e adjetivos sexuais infelizmente têm sido uma tecla recorrente nos ataques a Dilma (já comentamos isto em outra análise aqui), um ataque que ultrapassa o exercício da função política e mira sua condição de gênero. Por aí, fica muito evidente que o alvo é muito mais amplo; o ataque e a ofensa são para o lugar de mulher – ocupado por ela e por todas nós.

Conforme apurações da Secretaria de Políticas para as Mulheres, o adesivo teria sido vendido por uma mulher. Mais triste ainda. Ela não terá se visto (se vê?) ali também, de “pernas abertas”? Abrir as pernas, para ela, é este ato ultrajante? Ou, tomada pelos discursos misóginos que atravessam a criação das mulheres, ela terá reproduzido algo sem perceber que ela ajuda a reforçá-lo, fazendo crescer o poder de fogo de uma arma que aponta para ela mesma?

Na mídia, não houve grandes menções ao fato. Possivelmente, não para frear a circulação da ofensiva imagem (como escolhemos por fazer aqui), mas como uma negligência. Se a visibilidade exacerbada fortalece aquela imagem, a invisibilidade do fato invisibiliza, também, o tema.

O adesivo buscou provocar o riso, mas esse sarcasmo em relação à figura da mulher não deveria ser capaz de fazer rir; foi enquanto esgar que ele se tornou acontecimento e reverberou midiaticamente. Riso deprimente de um país que, ao traçar tal retrato de si mesmo, também revela o quão pouco lhe resta de respeito – pelo outro (a mulher enquanto alteridade), por si mesmo.

 

Vera França
Professora Titular do Departamento de Comunicação da UFMG

Tamires Coêlho
Doutoranda do PPGCOM-UFMG

Ana Karina Oliveira
Doutoranda do PPGCOM-UFMG

Pesquisadoras do Gris



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