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Lágrimas que acontecem, lágrimas que não acontecem

Diário da Copa – As lágrimas do goleiro Júlio César, após a vitória nos pênaltis contra o Chile, comoveram boa parte do público. Era um momento de superação de um atleta desacreditado pela torcida. No entanto, a Copa também provocou outras dores, perdas e choro, mas a comoção do público não foi a mesma.

 

Júlio César, goleiro da seleção brasileira, entra para a história como mais um caso de superação no futebol. Mesmo faltando três jogos para o possível hexacampeonato da seleção, ele foi decisivo nas cobranças de pênaltis na partida contra o Chile, pelas oitavas de final. Outros jogadores traçaram roteiros similares: Ronaldo foi campeão da Copa em 2002 após se recuperar de uma grave contusão no joelho, e Dunga foi capitão do time que venceu em 94, quatro anos depois de dar o nome para o time eliminado pela Argentina, a “era Dunga”.

Na Copa passada, Júlio César foi um dos “vilões” da eliminação do Brasil, ao falhar no jogo em que o Brasil perdeu para a Holanda por 2 a 0 nas quartas de final. O goleiro vinha de ótima fase e acabou sofrendo uma derrocada na carreira. A postura em suas declarações, que costumava ser de arrogância e prepotência, passou a ser de desânimo. Um dia após a derrota, Júlio declarou em entrevista: “Isso é que dói mais. Ver um Gilberto Silva, um pentacampeão do mundo, chorando daquele jeito. Ele e esse grupo não mereciam passar por isso.”

Quatro anos depois, Júlio foi o primeiro convocado pelo técnico Felipão. Mesmo com o bom desempenho na Copa das Confederações, havia desconfiança pelo jogador estar atuando num time tido como inexpressivo. Na partida contra o Chile em Belo Horizonte, o guarda-redes teve a chance de se redimir. Depois de um jogo dramático, empatado em 1 a 1 no tempo normal e na prorrogação – em que o nome dele foi ovacionado pelos torcedores após uma difícil defesa – Júlio César chorou antes mesmo das cobranças, recebeu o apoio dos colegas, defendeu dois pênaltis e viu a última cobrança dos chilenos bater na trave. Mais uma vez numa entrevista emocionada, Júlio lembrou o pior momento da Copa anterior e declarou: “Só Deus sabe, e a minha família, o que eu passei e o que passo até hoje. Mas eu sei que minha história na seleção não acabou. Meus companheiros estão me dando muito força pra eu chegar dentro de campo e dar o meu melhor. Faltam três degraus. Eu espero dar uma outra entrevista pra você de felicidade e com o Brasil todo em festa, esse é meu grande sonho”.

Se as lágrimas de Júlio causaram comoção na mídia e nas redes sociais, outras lágrimas derramadas quase dois meses antes não tiveram a mesma repercussão. No 1º Encontro dos Atingidos por Megaeventos e Megaempreendimentos, que teve como mote principal a Copa do Mundo, Sheila Mota contou o drama que viveu. Por causa das obras do aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre (RS), ela e sua comunidade foram removidas de suas casas e realocadas numa região conhecida como “Faixa de Gaza”, devido ao conflito de facções criminosas. Sheila, como muitos vizinhos, perdeu o filho. Ela nem mesmo pode participar do encontro, ao receber mais uma trágica notícia que revelou aos presentes. “Meu genro foi assassinado hoje (1º de maio) pela manhã, então eu queria pedir desculpas a todos os companheiros que vieram aqui por estar me retirando. E por que ele foi assassinado? Por conta da Copa! Por quê? Porque o governo não nos dá saúde, nem segurança e quer nos retirar da comunidade”.

Como lembrou a professora Vera França no texto que abriu as análises sobre a Copa, antes mesmo de acontecer, a realização do megaevento no Brasil foi motivo de controvérsia. Especialmente após as agora chamadas “Jornadas de Junho”, ela foi muito questionada por ser considerada desperdício de dinheiro, oportunidade para a corrupção, não ser prioridade num país em que faltam serviços públicos de qualidade. Mas muitos dos impactos e dos impactados ficaram invisíveis neste processo, como os 250 mil removidos de suas casas, segundo mapeamento divulgado na Suíça pela Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa (Ancop) em parceria com a ONG Conectas. Os motivos da invisibilidade são muitos: a nossa insensiblidade com os problemas dos mais fragilizados; as contradições de uma mídia que crítica um mega-evento ao mesmo tempo em que o promove; a dificuldade dos movimentos sociais de colocar problemas complexos como este na esfera pública. No país do emocionado e emocionante herói Júlio César, há muitas histórias desconhecidas e lágrimas que não acontecem. Lágrimas de heróis como Sheila, cuja vida cotidiana já é uma enorme superação.

Gáudio Bassoli
Jornalista e integrante do Gris/UFMG



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