Análise | Morte

Morte do jornalista Artur Almeida: o trágico e a trajetória

Diante da imprevisibilidade da morte impõe-se sempre a força de uma biografia. É o que se constata no caso do jornalista Artur Almeida, falecido no dia 24 de julho, em Lisboa (Portugal), aos 57 anos.

Foto: Reprodução/TV Globo – G1

O final do mês de julho de 2017 foi marcado pela morte do jornalista Artur Almeida. Editor-chefe e apresentador do MGTV 1ª Edição, ele estava de férias em Portugal com a família, quando sofreu uma parada cardiorespiratória. Chegou a ser socorrido, mas morreu a caminho do hospital. O jornalista tinha 57 anos, era casado e pai de três filhas. A repercussão de sua morte ultrapassou as fronteiras de Belo Horizonte, onde residia e trabalhava há 25 anos na Rede Globo Minas. Como podemos refletir sobre sua morte e a repercussão gerada por ela? Como ela afetou a vida dos mineiros e dos brasileiros de uma forma mais ampla? Sem a pretensão de esgotar aqui todas as dimensões desse acontecimento, pensamos aqui em dois eixos que permitem compreender o poder de afetação dessa morte.

Em primeiro lugar, esse acontecimento nos coloca diante da imprevisibilidade da morte: a morte “é a única certeza do nosso script”, como escreveu uma vez Eliane Brum,[1] mas não sabemos em que momento de nossas vidas ela acontecerá. A morte de Artur Almeida, assim, nos lembra que o momento pode ser durante as férias, ao lado da família, surpreendida pela dor e pela tristeza do acaso trágico que sobre ela se coloca.

Em segundo lugar, o acontecimento que encerra uma trajetória de vida nos faz lembrar que vida foi essa vivida por Artur Almeida, em especial, por estar há décadas na bancada quase diária do telejornalismo de Minas Gerais. Ele é lembrado em diferentes manifestações, que circularam na mídia como um profissional exemplar, competente, generoso e alegre; como um pai amoroso e dedicado; como integrante de “uma família de jornalistas brilhantes”, conforme o Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais.[2] Seu pai, Guy de Almeida, repórter  do extinto jornal Binômio, é lembrado como alguém marcante em sua trajetória. Segundo o jornalista e escritor Afonso Borges, Artur “herdou todas as suas qualidades: ética, franqueza, correção de caráter e, principalmente, um bom humor contido e inteligentíssimo”.[3]

Em trecho da comovente homenagem escrita pelas três filhas Iara, Paula e Amanda (que também é jornalista) dizem: “falar de você é falar de montanha, passarinho, pequizeiro, miquinho. É falar de uma vida cheia de poesia. Já são dez dias sem você. Um tempo imposto até chegarmos aqui pelas circunstâncias. Mas que nos serviu para, juntas, unidas com seus irmãos e pais, como você gostava, repassarmos, em boas conversas, o tanto que foi um privilégio compartilhar desse mundo com você.”[4]

A interrupção dessa vida, assim, tira de cena um sujeito que incorpora valores prezados em nossa sociedade: a competência, a generosidade, a ponderabilidade, a franqueza, a inteligência, a família, a retidão de caráter. São valores agregados à imagem pública de Artur Almeida que assim o projetam na memória coletiva – de Minas Gerais e do Brasil.

Paula Simões
Professora do PPGCOM-UFMG
Coordenadora do GrisLab

Nísio Teixeira
Professor do Departamento de Comunicação Social da UFMG
Membro do GrisLab

[1] https://brasil.elpais.com/brasil/2014/08/18/opinion/1408367710_653831.html
[2] http://g1.globo.com/minas-gerais/noticia/artur-almeida-veja-repercussao-da-morte-do-jornalista-da-tv-globo-minas.ghtml
[3] Idem.
[4] http://g1.globo.com/minas-gerais/noticia/despedida-do-jornalista-artur-almeida-e-marcada-por-emocao-e-homenagens.ghtml


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