Análise | Movimentos sociais e ativismo

Movimento de ocupação dos secundaristas, visibilidade midiática e cobranças sociais: o “futuro” do Brasil em luta

Após 6 meses de ocupações em diversos estados brasileiros, o movimento estudantil passou por um fortalecimento expressivo. A ocupação da ALESP por secundaristas conseguiu ser manchete em diversos veículos e foi o pontapé inicial para a instalação da CPI da Merenda. A negação de conhecimento e de estrutura (por parte do Estado) nas escolas públicas foi desafiada pela criticidade forte (ao sistema e às exclusões diárias que ele promove) dos jovens menos privilegiados.

Foto: Rovena Rosa/ Agência Brasil

Foto: Rovena Rosa/ Agência Brasil

O movimento de ocupação dos secundaristas (inicialmente em escolas estaduais e, posteriormente, em outras instituições, como a Assembleia Legislativa de São Paulo) conseguiu pautar problemas relacionados à precariedade do sistema educacional brasileiro, além de ganhar visibilidade midiática, pressionar fortemente a ALESP na investigação do desvio de verbas da merenda escolar e denunciar o fechamento de escolas públicas.

Após 6 meses de ocupações em São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Ceará, Goiás e Paraná, dentre outros estados, o movimento estudantil passou por um fortalecimento expressivo. A ocupação da ALESP foi o pontapé inicial para a instalação da CPI da Merenda. O desdobramento desse acontecimento também contou com a participação de artistas em visitas e shows nas escolas ocupadas, além de clipes de músicas de protesto com cantores famosos, o que gerou visibilidade para ocupações que não depredam as instituições, mas que contam com escalas de trabalho e divisão de tarefas para a sobrevivência, convivência e bem-estar dos acampados (limpeza, cozinha e discussões políticas).

O movimento de ocupação dos estudantes, apesar de muito bem localizado, não é isolado. Há diversas semelhanças e articulações possíveis com movimentos internacionais, como o Nuit Débout, na França (movimento essencialmente jovem que começou contra a anulação de leis trabalhistas): são movimentos que geram redes de solidariedade, seja entre movimentos, seja entre manifestantes e a comunidade local; há novos fluxos e dinâmicas de discussão e de ação que já não cabem nos enquadramentos e nos nomes estabelecidos por e para movimentos sociais tradicionais. A apropriação da internet e o ativismo em rede, a criação e viralização de petições e protestos, os registros audiovisuais dos atos e da truculência policial (material para denúncias) são alguns elementos essenciais dos novos processos de resistência.

Para Alain Badiou[1], essa crise da juventude popular no mundo contemporâneo é associada a uma insubmissão e a uma confrontação do capitalismo liberal, que abandonou esses jovens em todas as partes do mundo. O medo da juventude é característico de nosso tempo: a necessidade de contê-la acompanha leis repressivas, práticas policiais e tecnologias que nem sempre emancipam.

Se, por um lado, a negação de conhecimento e de estrutura por parte do Estado nas escolas públicas traz inúmeros problemas para os alunos, em termos de adequação às demandas dos vestibulares e de inserção no mercado de trabalho, por outro, nesse mesmo espaço é construída uma criticidade forte ao sistema e às exclusões diárias que ele promove. Os secundaristas têm uma educação política, construída “na marra”, que está muito longe de chegar às instituições privadas, pois passam por ausências e necessidades básicas que a maioria dos alunos de classe média/alta nem sabe que existem.

Diante do processo de luta e autonomia dos secundaristas e de seu desafio aos governos estaduais, bem como de seu poder de mobilização das comunidades em prol de condições básicas de ensino, está mais que evidente que a educação formal não é (e talvez jamais tenha sido) equivalente à educação política. Seria esse o início da reforma política que tanto almejamos? Ela começa nas escolas, nas comunidades, baseada na solidariedade e em pressão por mudanças estruturais, rompendo com as lógicas de movimentos sociais antigos e reinventando mecanismos de se fazer visível.

[1] Conférence “Quelle place et quel rôle pour les jeunes dans le monde contemporain” avec Alain Badiou. 2016. 

 

Tamires Ferreira Coêlho
Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social-UFMG
Pesquisadora do Gris

 

Esta análise faz parte do cronograma oficial de análises para o mês de maio, definido em reunião do GrisLab.



Comentários

  1. elisa disse:

    Muito oportuna a análise sobre o papel da juventude atual brasileira! Agora,quando o futuro do Brasil depende do ativismo progressivo dos jovens,para encontrar o caminho certo de um futuro melhor. Educaçao polìtica e desenvolvimento de competências crìticas no consumo da mìdia faz toda diferença na formaço de novas gerações com olhos abertos.

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