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O King Kong da vida real: o sacrifício do gorila Harambe

A morte de um gorila em um zoológico dos Estados Unidos se constituiu como um acontecimento de grande noticiabilidade pelo mundo. O animal foi sacrificado depois que um menino de quatro anos caiu em sua jaula. Protestos pela Web revelaram o poder deste acontecimento de suscitar um velho problema: qual a finalidade de manter animais em cativeiro ainda hoje?

Quem acompanhou as manchetes dos jornais na última semana se deparou com um velho enredo conhecido. As cenas filmadas por visitantes no zoológico de Cincinnati, nos Estados Unidos, exibiram uma versão atualizada do drama vivido por King Kong. No filme hollywoodiano, o gorila gigante é encontrado em uma ilha por uma equipe de cinema que gravava no local. Capturado e levado para Nova Iorque, onde se tornaria uma grande atração, o animal se apaixona pela estrela do filme, foge do cativeiro e rapta a mocinha. Quando chega ao topo do Empire State, é metralhado por aviões e cai da torre.

No caso real, ocorrido nos EUA, um gorila de 17 anos – a espécie vive em torno de 50 – foi abatido pelos funcionários do zoo depois que um menino de quatro anos conseguiu passar pelos mecanismos de segurança e caiu na jaula do animal. Cenas gravadas por quem presenciou o fato rodaram o mundo. Por mais de 10 minutos, Harambe, que pesava 204 quilos, e a criança dividiram o mesmo espaço.

Claro, há ressalvas sobre as semelhanças dos dois episódios. Mas é certo que, em ambos, o recorrente problema da relação do ser humano com a natureza é problematizado. O acontecimento formou vários públicos e os levou a se posicionarem sobre o desfecho que culminou na morte do gorila, criado em cativeiro. Alguns especialistas disseram que um tranquilizante poderia deixá-lo nervoso, provocando um ataque, e que a solução seria mesmo matá-lo. Já outra ala defendeu que um tratador conhecido de Harambe poderia ter entrado na jaula com comida, o que o distrairia e daria tempo para a retirada do menino. Opiniões científicas à parte, houve muita comoção com o sacrifício do gorila, a ponto de um abaixo-assinado online pedir que o zoológico processe os pais da criança. Testemunhas disseram que a mãe estava ao lado do menino quando ele pulou a cerca e caiu. A polícia já anunciou que vai investigar o casal.

Tal acontecimento nos instiga a refletir sobre a manutenção de animais em cativeiro para nosso simples prazer. A principal discussão que surgiu do fato foi: a manutenção de espécies em jaulas faz sentido em pleno século XXI? A capacidade do acontecimento de criar temporalidade trouxe à tona um passado recente de situações similares. Somente neste ano, dois leões foram sacrificados no zoo do Chile após um homem invadir o local em uma tentativa de suicídio. Na China, as vítimas foram humanas. Um visitante foi afogado por uma morsa enquanto tentava tirar uma selfie no zoológico de Weihai. Um tratador que tentou salvá-lo também morreu.

Mas para qual futuro o sacrifício do gorila aponta? Não podemos precisar, afinal o acontecimento gera consequências a partir das ações e posições que suscita. Se há um lado positivo desse fato, ele reside na possibilidade de debatermos sobre mudanças no tratamento que damos à natureza e nos modos em que nos relacionamos com ela. Por exemplo, ao mesmo tempo em que estudamos para salvar espécies de extinção, as criamos em cativeiro e mantemos uma cultura da exposição para nosso entretenimento. Atitudes como essas mostram que, talvez, o ser humano esteja focado em dominar a natureza em vez de começar a se perceber parte dela, o que foi encoberto pelos séculos vivendo nas grandes selvas de concreto que levantamos.

Aliás, estamos atrasados nessa reflexão. O filme de 1933 sobre o gorila gigante solto em Nova Iorque já nos mostrava os finais infelizes que poderíamos presenciar caso não agíssemos. Só nos resta, então, perguntar: quantos mais King Kongs serão mortos para percebermos que, quando eles se vão, morremos um pouco com eles?

Juliana Ferreira
Mestranda do PPGCOM-UFMG



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