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Quantas “Luanas” ainda morrerão?

Luana era mulher, lésbica, negra e pobre. Agredida por policiais militares na frente do filho, ela se torna mais uma vítima da violência policial no Brasil.

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Luana Barbosa dos Reis morreu após abordagem da PM em Ribeirão Preto (Fonte: G1)

Há exatamente dois meses, na noite do dia 8 de abril de 2016, Luana Barbosa dos Reis Santos, de 34 anos, saiu de moto com o filho de 14 anos para levá-lo a um curso. Moradores de Jardim Paiva II, na periferia de Ribeirão Preto, os dois foram abordados por seis policiais militares, ainda perto de casa. Assustado, o adolescente correu e foi pego pelos policiais, sendo obrigado a presenciar os atos de violência contra a própria mãe.

Luana, mulher, lésbica, negra e pobre. Parada, segundo a versão dos policiais, para averiguação da moto, cobrou por seus direitos e pediu para ser revistada por uma policial, o que lhe foi negado. Diante disso, ela não aceitou o procedimento e, então, as agressões policiais começaram. Confundida, a princípio, pelos militares com um homem, ela teve, inclusive, que passar pelo constrangimento de provar ser mulher, tirando a camisa e ficando só de top.

Ao final das agressões e sem terem encontrado prova alguma de crime, os policiais conduziram Luana à delegacia, onde registraram um termo circunstanciado, alegando que foram desacatados e agredidos pela mulher, que diferente deles não registrou queixa. Em um vídeo na porta da delegacia, Luana explica que revidou porque foi agredida e algemada. Após a ocorrência, voltou para casa, mas começou a apresentar febre alta e acabou sendo internada no Hospital das Clínicas, morrendo cinco dias depois em decorrência de isquemia cerebral e traumatismo crânio-encefálico, provocados pelas agressões.

Olhando para a morte trágica, de mais uma vítima daqueles que, a princípio, teriam que defender toda a população e não somente parte dela, como tratado em análises anteriores¹, percebemos mais uma vez uma tentativa de culpabilização da vítima. Apesar da cobertura midiática posicionar-se em defesa da Luana, vemos emergir também na narrativa jornalística, certos aspectos que, mesmo implicitamente, questionam seu papel de vítima. As reportagens apontam que Luana tinha antecedentes criminais, o que serve como justificativa para a abordagem policial. Afirmam também que ela reagiu às agressões e por isso os policiais teriam usado de mais força. No entanto, deixam de enfatizar, por exemplo, que eram seis policiais contra uma mulher ou que os policiais contam com outros meios, que não a força física, para lidar com casos de suposta resistência.

Mais do que a violência policial contra pessoas da periferia, a morte de Luana aponta para outros campos problemáticos, como o preconceito contra homossexuais. Luana foi vítima de lesbofobia, sendo seu caso comparado ao de Verônica, uma transexual espancada pela polícia, quando foi presa em São Paulo. A morte de Luana chama também a atenção para os casos de violência contra a mulher, para o feminicídio e para a seletividade desta violência. Segundo o Mapa da Violência (2015), no período de 2003 e 2013, enquanto houve uma redução de 9,2% entre as mortes violentas da população feminina branca, as mortes de mulheres negras aumentaram 54%.

Diante deste acontecimento, que apesar de já ter desaparecido da mídia, continua em aberto, ficam-nos os seguintes questionamentos: Até quando a violência policial continuará sendo negligenciada por alguns setores da sociedade? Quantas “Luanas” ainda morrerão nas periferias brasileiras até que algo, de fato, seja feito?

Fabíola Souza
Doutoranda do PPGCOM-UFMG

[¹] Veja análises anteriores sobre casos de violência policial que ganharam destaque na mídia:

http://grislab.com.br/crimes/protecao-limitada/
http://grislab.com.br/crimes/acontecimento-e-morte-3/

Veja mais sobre o caso nos links abaixo:

https://jornalistaslivres.org/2016/05/luana-barbosa-dos-reis-santos-presente/

http://g1.globo.com/sp/ribeirao-preto-franca/noticia/2016/05/mp-pede-que-apuracao-contra-pms-na-morte-de-luana-volte-justica-comum.html

http://g1.globo.com/sp/ribeirao-preto-franca/noticia/2016/04/apos-morte-familia-acusa-pms-de-espancar-mulher-em-ribeirao-preto.html

http://g1.globo.com/sp/ribeirao-preto-franca/noticia/2016/05/onu-pede-apuracao-sobre-mulher-morta-em-suposta-agressao-por-pms.html



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