Análise | Racismo

Questões de representatividade e afirmação: Quais as respostas sociais aos casos de racismo com celebridades?

Ataques virtuais racistas a celebridades, boicotes ao Oscar 2016, uma esponja de lavar louça no formato de um homem negro: acontecimentos recentes que atravessam a mídia brasileira e internacional e abriram diversas possibilidades: de questionamento, de reposicionamentos, de fama e de ações afirmativas.

Maju Coutinho, Taís Araújo, Cris Vianna e Sheron Menezzes.

Maju Coutinho, Taís Araújo, Cris Vianna e Sheron Menezzes.

O segundo semestre de 2015 foi permeado por diversos ataques racistas a celebridades femininas da Rede Globo de Televisão. Em julho, a vítima foi a “moça do tempo” do Jornal Nacional, Maria Júlia Coutinho; no início de novembro, a atriz Taís Araújo; no final daquele mesmo mês, a atriz Cris Vianna; e, em dezembro, a atriz Sheron Menezzes.

Todos os quatro ataques foram feitos via internet, nas caixas de comentários disponibilizadas por redes sociais e portais de notícia, e: todas as vítimas são mulheres famosas, em posições estratégicas de representação da mulher negra na TV. São elas que se revezam para ocupar a tímida parcela de negros no elenco da TV Globo, composta majoritariamente por artistas e jornalistas brancos.

Entretanto, dos quatro casos, apenas um teve consequências para além de manifestações de apoio às vítimas e de repúdio aos atos. Em dezembro de 2015, o Ministério Público fez uma operação em oito estados para ouvir possíveis autores dos ataques à Maju Coutinho. Nos depoimentos, identificaram-se grupos organizados cuja motivação é competir entre si pela atenção midiática em torno dos casos, usando os ataques racistas como forma de obter notoriedade.

Além do evidente “sucesso” das ações criminosas, que trouxeram muita atenção midiática para os casos, esses acontecimentos acionaram um quadro de sentidos que frequentemente é atualizado quando surgem casos de racismo envolvendo celebridades, que é o da solidariedade passiva. Na repercussão online do caso, vimos a criação das hashtags #SomosTodosMaju e #SomosTodosTaís, alusões ao caso “#SomosTodosMacacos”, nascido de um episódio de racismo contra o jogador Daniel Alves. Neste último caso, a hashtag evocava a ideia de igualdade racial entre brancos e negros, premissa que ainda serve para mascarar o racismo velado praticado no dia-a-dia.

Apesar das tentativas de discussão e de vivermos em um país em que 53% da população se autodeclara negra ou parda,  assistimos a uma TV e a um cinema brancos, cujo espaço destinado aos negros é pequeno e passa longe de posições de poder, reforçando o estigma racial muito presente não só no Brasil, mas em âmbito internacional. Nas últimas semanas, muitos profissionais do cinema hollywoodiano têm declarado boicotes ao Oscar 2016, por não ter nenhum ator ou diretor negro entre os indicados, e a atriz Viola Davis, ao ser premiada no Emmy de 2015, fez um discurso emocionado, dizendo que atores e atrizes negros podem ganhar prêmios, eles só precisam de papeis: o que os separa dos brancos não é o talento, mas a oportunidade.

De volta ao Brasil, na edição atual do reality show Big Brother, uma esponja de lavar louças com formato de um homem negro, em que o cabelo black power é a esponja, causou polêmica. No mínimo, um contrassenso em tempos de luta pela aceitação e valorização das características das pessoas negras. O utensílio, provavelmente produzido para conferir um ar moderno e descolado a uma casa, não só passa batido pelas ofensas comuns aos cabelos afro, bem como as reforçam. Além disso, de um modo irônico e cruel, ainda corroboram para a perpetuação de um lugar social destinado há séculos à população negra: o trabalho, a cozinha, o servir.

Como vemos, não são raros os episódios de racismo – velado ou explícito – que atravessam a mídia brasileira e internacional, em que negros ainda são exceções, e esses acontecimentos abrem diversas possibilidades: de questionamento, de reposicionamentos, de fama e de ações afirmativas. É pela própria mídia que muitas vozes e corpos têm se elevado e se mostrado para expor esse problema público e desnaturalizá-lo, em um trabalho que precisa ser vigilante, coletivo e incansável.

 

Mayra Bernardes
Bacharel em Comunicação Social – Jornalismo (UFMG)

Pesquisadora do GRIS

Ana Karina Oliveira
Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UFMG
Pesquisadora do GRIS

 

Esta análise faz parte do cronograma oficial de análises para o mês de janeiro, definido em reunião do Grislab.



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