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Rádio Guarani: final feliz?

Tradicional rádio em frequência modulada de Belo Horizonte muda radicalmente sua programação para o gospel.

Site da Guarani FM, em 28/04/2015.

Site da Guarani FM, em 28/04/2015.

Após cerca de 25 anos de existência, a Rádio Guarani FM deve trocar de mãos e programação nesta sexta-feira, 1º de maio de 2015. Conforme noticiou o jornal O Tempo, em 24 de março do corrente, a rádio gospel Feliz FM, com sede em São Paulo, assumirá a frequência dos 96,5 megahertz da Guarani, expandindo assim o seu alcance para 12 filiais no Brasil. De acordo com a mesma matéria, o pastor Juanribe Pagliarin, fundador e presidente da Comunidade Cristã Paz e Vida, é o responsável por boa parte dos programas da emissora. Até o momento não foi divulgado nenhum detalhe em torno da programação, seja por parte dos Diários Associados, empresa à qual a rádio Guarani era vinculada, ou pela própria Feliz FM – cujo site oficial apenas confirma a estreia nas ondas da capital mineira no 1º de maio. No site da Guarani FM, apenas uma imagem com um “obrigado…” abaixo de um versal “Equipe Rádio Guarani”. Nas redes sociais, alguns profissionais lamentam a última semana, enquanto outros prometem uma futura versão on line da programação da emissora. Alguns aspectos valem ser destacados no caso Guarani.

Primeiro, o sistema de concessão brasileiro, que permite gerar, no mínimo, uma dúvida para o caso: se a concessão foi autorizada para um determinado grupo e com o objetivo de apresentar uma determinada programação, ela não deveria passar por uma nova autorização, uma vez que a instituição e o propósito original da programação se modificaram? O debate segue não só nesse aspecto do rádio, mas também se observa na televisão, quando emissoras de canais abertos, cuja concessão foi aprovada por oferecer uma determinada programação, sublocam horários para grupos comerciais e/ou religiosos.

E aí entra o segundo ponto: não estaria, então, o poder econômico distorcendo um sistema já distorcido? Uma vez que a Constituição brasileira prega que os objetivos primeiros das concessões públicas têm a ver com seu caráter cultural e educativo, eis que o poder econômico de determinados grupos, sejam eles políticos, religiosos ou econômicos passa, ao final das contas, a ditar o que deve ou não fazer parte de uma concessão pública de canal, seja ele radiofônico ou televisivo. E, vale dizer, mesmo ao se restringir a questão à influência de determinados grupos religiosos, nota-se a ausência de uma diversidade de vozes e pluralidade mesmo dentro desse escopo, no qual grupos católicos e protestantes predominam com uma força quase total ante outras experiências religiosas como o espiritismo, umbandismo, islamismo etc.

Por fim, de modo mais específico em torno da Guarani, a escolha por determinados programas e horários têm a ver com um misto de expectativa de confirmação e surpresa do ouvinte – por exemplo, se sintonizo o “Um toque de clássicos” sei o tipo de música que vai tocar ali, mas, por outro lado, posso ser surpreendido pelas escolhas do repertório no programa. Estas surpresas, aliás, ocorriam mais internamente dentro dos programas específicos do que propriamente ao longo da programação geral como um todo, em que, após ouvir a rádio pelas mesmas duas horas do dia durante uma semana, no dia ou na semana seguinte não havia tantas variações no playlist. De toda forma, confrontar essas surpresas maiores e menores era um dos meus mais interessados exercícios como ouvinte da emissora. Confirmada a substituição totalizante de toda sua programação pela de uma emissora gospel não há surpresas ou expectativas – há uma mudança radical de perfil. Mudança que, no caso do próprio nome da rádio não deixa de trazer, ainda como metáfora, um traço marcante e sofrido de finais pouco felizes das histórias indígenas brasileiras: até mesmo esta guarani radiofônica é rebatizada ante o impacto de transformação das novas (?) forças históricas evangelizantes no Brasil.

Nísio Teixeira
Professor do Departamento de Comunicação Social da UFMG
Pesquisador do Gris/UFMG



Comentários

  1. walter lima disse:

    A FALTA DE EMPREENDEDORISMO AQUI EM MG E GRANDE,A GUARANI TEM O SEU AM 1190 QUE PODERIA ABRIGAR A PROGRAMAÇAO FM EXTINTA ATE QUE A am PARA A FAIXA ESTENDIDA.a RADIO FELIZ ESTA EM DUAS FREQUENCIAS NAO APENASS UMA,……

  2. Paulo Medeiros disse:

    O QUE MANDA NESTE PAÍS É AQUELE QUE TEM DINHEIRO,QUE COMPRA CARÁTER,CORROMPE, E ESBOFETEIA A CONSTITUIÇÃO.

  3. Marta Maia disse:

    A nossa família ouvia o programa “Um toque de clássicos” todos os dias no horário do almoço. Uma grande perda para os ouvintes. Já são 462 emissoras evangélicas em Belo Horizonte. Mais uma vez o direito à comunicação é vilipendiado pelos monopólios, seja econômico, seja religioso. Uma lástima!

  4. Nádia disse:

    Lamentável…
    a partir do dia 1º de maio a frequência 96,5 será apagada da memória do meu rádio.

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