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A Copa como uma lente de aumento

Diário da Copa – Dilma não fez discurso na abertura do Mundial e mesmo assim não escapou de vaias no Itaquerão. Quais foram os sentidos atribuídos a essa ocorrência? Quem vaiou a presidente? Por que isso aconteceu?

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Foto: Dilma na abertura da Copa  (Nilton Fukuda/Estadão Conteúdo)

Minutos antes do pontapé inicial da partida entre Brasil e Croácia, na cerimônia de abertura da Copa do Mundo 2014, que aconteceu no dia 12 de junho, no estádio Itaquerão, em São Paulo, foram ouvidos insultos e vaias contra a presidente Dilma Rousseff. Na transmissão ao vivo, algumas emissoras comentaram o fato atribuindo a isso a queda de popularidade da presidente e outras não mencionaram o ocorrido naquele instante. O grande acontecimento que era a abertura e o início da Copa do Mundo no Brasil, mesmo com toda sua previsibilidade, foi marcado por ocorrências como esta, que imediatamente após romperem o protocolo da cerimônia, começaram a repercutir e desencadear os mais diversos sentidos. Os comentários nas redes sociais sobre o evento se multiplicaram e nas notícias sobre o início da Copa, praticamente todos os veículos de comunicação pautaram as vaias.

Neste cenário, é interessante perceber quais sentidos foram atribuídos às vaias, que discussões emergiram a partir delas, que valores foram acionados para justificá-las ou condená-las e de que maneira os sujeitos foram afetados por isso. As notícias publicadas no portal G1 e no EM.com, por exemplo, destacaram que os insultos e vaias começaram na área VIP do estádio, que seria reservada para celebridades e pessoas de classes sociais mais altas. Ao colocar essa questão, começam a surgir nas redes sociais comentários de apoio e de repúdio às vaias. Mas este não é ponto mais curioso.

Para além da aprovação ou repúdio das pessoas, a questão da área VIP trouxe polêmica. Houve comentários indignados com a falta de educação da torcida nesta área, ressaltando que a área VIP era composta, em sua maioria, de pessoas brancas pertencentes às classes sociais mais altas. E um comportamento mal educado como este de vaiar a presidente de um país, não seria condizente com esta “elite branca” que ocupava os lugares da área VIP. A esta elite, atribui-se uma postura fina e educada. Logo, as vaias são um comportamento associado ao “outro”, ao que não pertence a este grupo seleto.

Este tipo de associação sugere que o fato de uma pessoa ser de uma classe social baixa ou ter a cor da pele negra implica em uma postura mal educada. Já traz consigo uma expectativa de que aquela pessoa (negra e pobre) não sabe se comportar adequadamente, não tem uma boa educação. É como se “ser negro” fosse quase um sinônimo de ser sem educação e grosseiro. Aspecto este que demonstra forte racismo.

Outros comentários problematizavam a insatisfação por parte dessa classe com a política do governo de Dilma, mais voltada às classes pobres, e deixavam evidentes questões como a desigualdade social no Brasil e a indiferença de uma parcela da população em relação a isso. O debate entre os contra e os que são a favor da presidente e, inversamente, contra e a favor das vaias se estendeu pelas redes, mas sempre chamando outras questões para a discussão: a popularidade de Dilma, o resultado das eleições, a situação econômica do país, a desigualdade social, os gastos com a Copa, as concessões feitas à FIFA, e por aí vai.

E a discussão não se restringiu às redes sociais. As pessoas comentavam nas ruas, com os colegas de trabalho, no ônibus, nos almoços de família. A questão mobilizou desde o mais intelectual analista político até o cidadão ordinário do cotidiano. E todos, convocados pelo acontecimento, se posicionaram. Naquele momento, todos falaram de política. Um assunto muitas vezes recusado pela maioria. E talvez seja este realmente o legado dessa Copa: servir como uma lente de aumento para enxergar questões e valores que estavam, até então, em um estado latente.

Maíra Lobato
Jornalista e integrante do Gris/UFMG



Comentários

  1. referencia disse:

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  2. Nísio Teixeira disse:

    Interessante foi perceber o desdobrar do episódio: se as partes da vaia fazem parte do jogo, a parte do xingamento embutiu até mesmo um preconceito de gênero contra a presidenta. Dilma, que raramente comenta seu passado político, recorreu a ele no dia seguinte para manter a postura ao dizer que se havia suportado o limite de dores físicas, não seriam xingamentos que a deixariam abatida. As redes pipocaram e até mesmo os candidatos da oposição que, em um primeiro momento “capitalizaram” a vaia e o xingamento contra a presidente como um termômetro em um balaio único, tiveram de reaparecer para separar o joio do trigo. Ou seja: mais do que política, o episódio pontuou mesmo um tom eleitoral logo nos primeiros dias do evento.

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