Análise | Poder e Política

Temer em negação: os desabafos do eterno vice decorativo

Em formato de vlog, Michel Temer lançou três vídeos no twitter, rebatendo críticas de Geraldo Alckmin e Fernando Haddad, exigindo que os candidatos “falem a verdade”. Mas quem falta com a verdade é Temer.

Governo Michel Temer ruindo. Foto: Reprodução/Twitter

Não é raro comparar a série House of Cards com os ardis dos palácios de Brasília. Na ficção, após orquestrar várias crises no interior do governo, o vice golpista Frank Underwood consegue usurpar a presidência, mas, depois de finalmente alcançar o tão sonhado “Poder”, Frank tem que resolver o caos que ele mesmo provocou. Durante as temporadas em que é presidente, Underwood se mostra impopular e corrupto, incapaz de construir um legado duradouro. No trailer da última temporada, ele já está morto, enterrado em uma cova modesta no “fundo de seu jardim”. Tal como já sugeria o  título da série, engana-se quem acredita que a política sem escrúpulos deixa grandes monumentos: ela só ergue frágeis “castelos de cartas” que desabam com a mais leve brisa.

Até o momento, o destino de Michel Temer parece seguir o mesmo caminho. Antes de suceder Dilma, ele já tinha indicado que iria abraçar o “grande acordo nacional” através de uma carta supostamente escrita para a presidenta, mas na verdade feita para ser “vazada” à imprensa. Nessa carta, ele tentava se distanciar do governo, assumindo o papel cunhado por ele próprio de “vice decorativo”. Esse personagem criado por ele e para ele buscava se afirmar como alguém que participa do governo apenas em nome, que não era responsável pelas políticas petistas e, portanto, não tinha nenhum compromisso com elas. Provavelmente, ele imaginava que, após ascender ao Planalto, conseguiria ter mais protagonismo. Porém, quase três anos depois do “desabafo”, Temer pode ter conseguido o cargo mais cobiçado do Brasil, mas continua um marginal no cenário político.

Apesar de relativamente curto, seu governo foi catastrófico. Para a população, Temer se mostrou um político verdadeiramente corrupto, que os fez engolir medidas arbitrárias e largamente impopulares, como a PEC do Teto de Gastos e a “contrarreforma trabalhista”. Para seus aliados da elite, ele se mostrou incompetente, não conseguindo entregar a prometida Reforma da Previdência. No fim das contas, independente de sua ideologia política, Temer terminará seu mandato como um presidente unanimemente odiado: sua aprovação é mínima, segundo o Datafolha, somente 3% o avaliam como bom ou ótimo, “uma margem de erro” nas palavras de Marcelo Freixo.

Assim, não há nenhuma surpresa quando todos os candidatos desta eleição tentam se afastar de sua figura. No horário eleitoral gratuito, enquanto Meirelles (MDB) busca se aproximar mais de Lula, Alckmin (PSDB) não o poupa de críticas. Claramente incomodado, Temer utilizou sua conta no twitter para rebater: ele lançou um vídeo lembrando que os aliados de Alckmin são os mesmos do seu governo, acusando-o de dizer falsidades. Se dirigindo diretamente a Alckmin, ele diz: “Não atenda aos marqueteiros. Atenda apenas à verdade.” Dois dias depois, ele retrucou Haddad, tentando defender a legitimidade de sua cargo assim como de suas políticas.

As respostas em formato de vlog não parecem ter nenhum uso estratégico e foram interpretadas menos como questionamentos sérios sobre os discursos dos dois candidatos e mais como desabafos histéricos, indícios da impotência de um político fracassado, inconformado com sua própria rejeição. Porém, vale lembrar a verdade recalcada por Temer: tal qual Frank Underwood, quem o pôs nesse lugar do coadjuvante isolado foi ele próprio.

@MichelTemer: reconheça a verdade.

Caio Santos

jornalista, comunicólogo e bolsista de Apoio Técnico no GrisLab



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