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Acontecimento, morte e fama

Morte em cena: Cristiano Araújo e o poder de afetação do acontecimento

A análise trata da morte do cantor sertanejo Cristiano Araújo e da namorada Allana, num acidente de carro na madrugada do dia 24 de junho, e o seu poder de afetação na sociedade. Manifestações a respeito do estilo musical do cantor e o uso de cinto de segurança, além da juventude do casal foram explícitas não só nas mídias tradicionais como nas redes sociais, revelando o poder de afetação das celebridades na sociedade em que vivemos.

Última foto de Cristiano Araújo e a namorada, Allana Moraes. Fonte: R7

Última foto de Cristiano Araújo e a namorada, Allana Moraes. Fonte: R7

A morte de uma celebridade na contemporaneidade tem ampla repercussão nos veículos tradicionais e nas redes sociais. Assim foi com a morte do cantor sertanejo Cristiano Araújo, no dia 24 de junho, em um acidente de carro. O velório do cantor e de sua namorada Allana Moraes teve proporções homéricas, reuniu cerca de 50 mil pessoas e recebeu intensa cobertura midiática.

Como pensar o poder de afetação da morte desse casal em nossa sociedade? Ou, retomando a reflexão de Louis Quéré, como pensar a passibilidade desse acontecimento? É preciso destacar que a morte de Cristiano Araújo tomou grandes proporções, mobilizou vários públicos e foi capaz de alterar a programação da Rede Globo, feito não usual. Apesar da exagerada visibilidade conferida ao caso, é preciso lembrar de alguns traços desse acontecimento que apontam para a sua passibilidade. Em primeiro lugar, trata-se de uma morte trágica. Cristiano Araújo era um jovem de 29 anos, quando, voltando de um show no interior do país, um acidente fatal de carro tirou a sua vida e a de sua namorada, de 19 anos. Em segundo lugar, tratava-se de um ídolo para muitos fãs. Cantor e compositor, a música sempre fez parte de sua vida, até que em 2011 a primeira parceria de sucesso com a dupla Jorge&Matheus na canção “Efeitos” deu o pontapé para a carreira de Cristiano. Apesar de ser desconhecido para muitos até o momento da morte, o cantor goiano arrastava multidões para os shows que fazia – até dois por noite – e que lhe rendiam em média 250 mil reais por vez.

A fama do cantor, expoente do sertanejo universitário, demonstra a multiplicidade de estilos musicais que o país abriga e reconhece a diversidade da cultura nacional. Na crônica para o Jornal das Dez (GloboNews), o apresentador Zeca Camargo chegou a criticar a comoção dos brasileiros e brasileiras alegando uma falta de ídolos verdadeiros e referências culturais mais robustas. Foi rechaçado nas mídias sociais e teve que emitir um pedido de desculpas exibido logo depois na Rede Globo. Assim, a morte de Cristiano Araújo revela uma cena musical complexa: o sertanejo pode ser visto como um gênero musical difundido e apreciado popularmente, mas não é “legitimado” como música de qualidade, o que endossa certa supremacia cultural de outros estilos musicais. Isso aponta para uma das faces do poder hermenêutico desse acontecimento, conforme discussão de Quéré.

Outro eixo desse poder revelador do acontecimento diz respeito ao uso do cinto de segurança no banco traseiro dos veículos, prática pouco adotada no país mesmo sendo regra de trânsito desde 1997. O veículo do acidente era conduzido pelo motorista Ronaldo Miranda, que sofreu ferimentos leves assim como o passageiro do carona, ambos de cinto. Cristiano e Allana estavam sem cinto. Após o acidente, várias matérias foram ao ar lembrando a importância do equipamento de segurança e incentivando seu uso mesmo durante curtos trajetos e velocidade baixa.

Pensada como um acontecimento, a morte se constitui como uma ruptura na continuidade da experiência cotidiana – sobretudo, quando se trata da morte inesperada e trágica de uma figura célebre como o cantor, que deixa dois filhos pequenos. A juventude do casal põe em destaque a efemeridade da vida e a imprevisibilidade do futuro. E nos convoca a refletir sobre a necessidade de aproveitar o presente, pois não se sabe a hora da morte.

 

Laura Lima e Paula Simões
Graduada em Ciências Sociais-UFMG  / Professora do Departamento de Comunicação-UFMG
Pesquisadoras do Gris



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