Análise | Movimentos sociais e ativismo Política Televisão

Emmy 2017: político e necessário

Uma análise sobre os vencedores e as vencedoras do Emmy 2017, que valorizou as produções sobre minorias e sobre política.

Donald Glover, Elizabeth Moss e Lena Whaite. Fonte: Alberto E. Rodriguez/Staff/Getty Images.

Entre as grandes premiações da indústria do entretenimento estadunidense, ao lado do Oscar (cinema), do Globo de Ouro (TV e cinema) e do Grammy (música), está o Emmy. Ele acontece no final do ano e premia os destaques da televisão estadunidense daquele período.

Para além das várias críticas que podem ser feitas ao sistema de premiação e ao sistema de produção de Hollywood, o evento deste ano trouxe alguns aspectos que merecem ser destacados. Além da apresentação de Stephen Colbert, ácida em relação ao presidente Donald Trump, o que vimos foi alguma mudança no perfil dos ganhadores.

As duas séries com mais estatuetas vencedoras – The Handmaid’s Tale (Hulu) e Big Little Lies (HBO) – são adaptações de livros escritos por mulheres sobre mulheres, produzidas pelas atrizes principais. A tematização do machismo e das opressões e violências a que mulheres são sistematicamente submetidas está contida nas duas obras, que têm focos diferentes mas são igualmente arrebatadoras. Sucesso de público e crítica, ambas ganharam visibilidade e deixaram o recado de que o espaço nessa indústria está sendo ocupado, aos poucos, por elas.

No difícil nicho das comédias, política vira piada e ainda faz refletir. Saturday Night Live teve sua temporada mais abertamente anti-Trump aprovada pela academia de artes e ciências da televisão, e ganhou quatro prêmios.

A noite ainda contou com três primeiras vitórias: Donald Glover, primeiro negro a ganhar como diretor por Atlanta; Lena Whaite, primeira roteirista negra por Master of None e Reed Morano, primeira mulher diretora em 22 anos, pelo primeiro episódio de The Handmaid’s Tale. Que isso ainda seja motivo para comemoração é um sintoma problemático. Mas, ao mesmo tempo, reforça a necessidade de movimentos sociais e ativismos políticos que transformem a realidade.

A premiação também expressa uma alteração nos hábitos de consumo de programas televisivos: grande canal da noite, o Hulu, é um serviço de streaming, assim como a Netflix.

As mudanças em direção a sociedades mais democráticas e livres não deixam de passar pelo aspecto do entretenimento e das representações midiáticas. Se temos mais séries diversificadas sendo premiadas, mulheres, negros/as, gays, lésbicas, transexuais, pessoas com deficiência, entendemos que temáticas relacionadas estão em voga. A diferença entre produções de anos anteriores fica mais clara e acaba apontando uma direção diferente do monopólio dos homens, brancos e heterosexuais. É preciso refletir também sobre o momento em que essas temáticas identitárias surgem. Relacionadas à indústria cultural, evocam o apelo neoliberal de captar discursos vendáveis e transformá-los em material de consumo. Se feminismo e empoderamento estão na moda, e o politicamente correto dá o tom das relações em tempos de extremos, nada mais acertado do que este Emmy.

Essas mudanças demonstram a complexidade do cenário, a diversidade de atores e interesses. Não acreditamos em uma mídia descolada do mundo material, mas imbricada nas interações sociais, construindo na mesma medida em que é construída. O saldo do Emmy, portanto, é bom. Que os próximos sejam cada vez mais reflexo das sociedades que queremos construir e viver.

Laura Lima
Mestranda do PPGCOM-UFMG



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