Análise | Festividades e megaeventos Questões raciais

Lembrar é resistir: histórias de Donatas, Isabéis, Marias, Mahins, Marielles e malês

A festa de Donata Meirelles e o desfile de duas escolas de samba do Rio de Janeiro falam alto por nós. Escancaram a estrutura racista que permeia as relações brasileiras, e escancaram, também, que há vozes atentas e prontas para lutar.

Foto: Fábio Motta/Estadão

Há um mês, as fotos da festa de 50 anos de Donata Meirelles, socialite e então diretora da Vogue Brasil, caíam nas redes e causavam revolta. Nelas, Donata aparecia sentada em uma imponente cadeira de vime, conhecida como trono de mãe de santo, e ladeada por mulheres negras fantasiadas de baianas; o cenário foi montado para que os convidados (em sua maioria, brancos) também pudessem posar de forma semelhante no saguão do luxuoso Palácio da Aclamação, em Salvador.

A semelhança entre a fotografia de Donata e de outros convidados com as cenas pintadas por Jean-Baptiste Debret no século XIX causa, no mínimo, espanto. Como é possível que o período colonial, marcado pela escravização e precarização do povo negro, e os símbolos sagrados de uma religião afro-brasileira, sejam fetichizados e usados como decoração ainda em 2019? O evento, que contou com a participação de diversas celebridades da música, como Ivete Sangalo (que defendeu a socialite das acusações de racismo) e Caetano Veloso, se estendeu por um fim de semana inteiro e foi amplamente criticado e exposto nas redes por antropólogos, historiadores, militantes e celebridades. O caso atingiu repercussão internacional e respingou na reputação da Vogue Brasil. Donata se desculpou em um post no Instagram, dizendo não ter tido como intenção o reforço de representações coloniais e racistas, e três dias depois pediu demissão do cargo que ocupava na revista.

No contexto atual, em que o próprio Presidente da República sugere que deixemos os historiadores para lá, em que pessoas públicas afirmam que não houve escravidão nem ditadura no Brasil e em que o racismo produz eventos como o assassinato de Pedro Gonzaga e tantos outros diariamente, a tentativa de apaziguar a violenta história do nosso país, de silenciar suas vítimas e aqueles que a contam sem perdões não parece tão deslocada. Ao colocar mulheres negras como enfeite de uma luxuosa festa, a festa de Donata, sem querer, fez falar da incapacidade coletiva dos brasileiros de lidar com os próprios erros e traumas, que convenientemente caem no esquecimento.

Na Sapucaí, um mês depois dos acontecimentos envolvendo Donata Meirelles, duas escolas de samba do Rio de Janeiro homenagearam, de formas quase opostas, figuras importantes da história do Brasil: enquanto a Unidos de Vila Isabel celebrou a figura da Princesa Isabel, sempre lembrada como benevolente por ter dado a “liberdade” ao povo negro, a Estação Primeira de Mangueira, campeã do carnaval 2019, com o enredo “História para ninar gente grande”,  homenageou os heróis dos barracões e também trouxe a figura da Princesa, mas manchada de sangue e sambando em cima de pilhas de ossos, representando o sangue retinto por trás dos heróis emoldurados. A escola expôs a história que a História não conta.

Os dois acontecimentos, separados por um mês de distância, falam alto por nós. Escancaram a estrutura racista que permeia as relações brasileiras, e escancaram, também, que há vozes atentas e prontas para lutar. Em nossos tempos, lembrar – de Donata e do papel da elite branca em nosso país, do período colonial, das Marias, Mahins, Marielles, malês – é resistir.

Mayra Bernardes
Mestranda em Comunicação pelo PPGCOM-UFMG
Bolsista de Apoio Técnico – GRIS UFMG



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