Análise | Machismo Mídia

Maisa Silva e o lugar objetificado da mulher no SBT

A polêmica envolvendo Maisa Silva, Dudu Camargo e Silvio Santos mobilizou adeptos de redes sociais. Enquanto a reação da apresentadora fala muito de uma geração questionadora e crítica, a posição de Silvio Santos revela uma televisão que ainda pensa na mulher como objeto a ser explorado em nome da audiência.

Fonte: Portal Caras/UOL

No dia 18 de junho, a atriz e apresentadora Maisa Silva participou do quadro Jogo dos Pontinhos, no Programa Silvio Santos, junto ao apresentador e colega de emissora Dudu Camargo. Diferentemente de outros domingos comandados pelo dono do SBT, este acabou repercutindo na mídia e nas redes sociais, polarizando opiniões e gerando debate sobre a exposição da vida pública e privada das mulheres na mídia, além da hiperssexualização de adolescentes na televisão.

Silvio Santos tentou aproveitar a presença dos apresentadores para formar um casal durante seu programa, já que ela está “solteira”, apelando para o desrespeito à apresentadora e visando audiência às custas da exposição e objetificação de uma adolescente de 15 anos. A reação de Maisa Silva foi negativa e crítica diante das provocações tanto de Silvio quanto de Dudu: “Então eu posso ir embora. Não estou aqui para arranjar namorado. É um ultraje, é constrangedor você me submeter a uma situação dessa”.

A repercussão nas redes sociais não foi apenas de apoio à jovem, mas também constituída por críticas às reações de indignação de Maísa, já que a apresentadora não saberia lidar com “brincadeiras”. Posteriormente, Sônia Abrão recebeu Dudu Camargo em seu programa e reacendeu a polêmica, sobretudo quando o apresentador de 19 anos afirmou que convidou Maisa para dormir com ele após ela o ter chamado de engessado. Mais uma vez a adolescente foi criticada, afinal, na visão de Abrão, não soube levar na esportiva a “brincadeira” de colegas de emissora.

Conhecida por suas postagens que exaltam a liberdade de escolha das mulheres e por já ter se manifestado contra pessoas que queriam lhe arrumar um namorado (enfatizando que era apenas uma menina e não precisava disso), a apresentadora protagonizou um episódio de degradação diante da confusão entre sua personagem pública e a invasão de sua vida privada. E esse tipo de situação não é exceção em uma sociedade que bombardeia mulheres diariamente com brincadeiras de mau gosto sobre os “namoradinhos”, sobre “ficar para titia”, ou que tem uma reforma trabalhista que dificulta a vida de mulheres que não querem ter de escolher entre vida profissional e maternidade.

Em nossa estrutura social, a função/papel das mulheres seria apenas a de arrumar um bom marido e casar jovem, e a única possibilidade de final feliz seria ter um homem. Quando Maísa recusa a proposta de Silvio Santos, ela diz ‘não’ às provocações que as mulheres sofrem no meio profissional, à vida afetiva exposta, ao constrangimento e à hiperssexualização e objetificação naturalizadas de uma garota que nem atingiu a maioridade ainda. Isso desestabiliza posições em uma sociedade patriarcal.

Maisa Silva tem todo o direito de dizer ‘não’ e ninguém tem o direito de julgá-la por isso. Sua posição incomoda, sobretudo por ser uma celebridade que está desde a infância sob holofotes e pressão midiática, e que, pelo visto, não se submete a tudo pela fama. Devem ser debatidos o constrangimento e a exposição de mulheres que não se adequam ao formato machista que ainda predomina na mídia hegemônica, assim como o desrespeito frequente ao Estatuto da Criança e do Adolescente e à luta das mulheres por igualdade. As recusas da apresentadora foram uma lição para quem acha que as famosas fazem tudo pela exposição: a nova geração de mulheres parece ocupar os espaços públicos de forma questionadora e crítica.

Débora Madeira 
Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Ouro Preto.

Tamires Coêlho
Professora da UFOP
Pesquisadora do GRIS



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