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“O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”: o protesto popular irrompe o Fantástico

O discurso feito pela presidente Dilma Rousseff no último dia 26 de outubro, logo após a confirmação da sua reeleição, foi interrompido diversas vezes por manifestações de apoio do público. Observaremos um dos textos sonoros entoados repetidamente em uma dessas interrupções que nos evoca experiências passadas de manifestações populares. A escuta mediada pela Rede Globo de tal apelo contra a própria emissora torna-se por si só um acontecimento que acrescenta novas camadas de sentido ao texto sonoro.

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Em seu primeiro discurso após a divulgação do segundo turno das eleições, Dilma Rousseff não pôde conter a empolgação do público presente que a interrompia a todo momento com palmas, assovios, gritos incompreensíveis e, em coro, entoavam diversos textos de apoio: “1,2,3 é Dilma outra vez,” , “olê, olê, olá, Dilmaa, Dilmaa”, “coração valente”.

Dentre estes textos sonoros, destacamos “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”, repetido por durante cerca de 30 segundos pelos manifestantes e transmitido por vários veículos de comunicação para todo o país, dentre eles os canais de televisão da Rede Globo. A escuta de tal texto sonoro nos remete a outros acontecimentos distantes no tempo, tais como o movimento brizolista no início da década de 80 ou as jornadas de junho de 2013. Momentos históricos em que tal refrão foi entoado e constituem a nossa memória coletiva.

Entendemos que a memória é construída através de uma variedade de discursos e diversas camadas de representações. O texto sonoro torna-se, portanto, um lugar de memória ao permitir ao ouvinte uma transposição no tempo e no espaço por meio da experiência da escuta, trazendo o passado rememorado ao presente. Este refrão torna-se assim uma cápsula de memória que provoca no ouvinte uma evocação do tempo passado, de experiências anteriores de mobilização popular.

Por sua vez, a própria prática de escuta desse texto sonoro no recente momento da reeleição pode ser considerada como acontecimento. Ainda que notadamente o posicionamento da Rede Globo tenha sido contrário à sua reeleição durante todo o período da campanha política em 2014, pela relevância do acontecimento para a política nacional, o discurso oficial da presidente reeleita não poderia deixar de ser transmitido ao vivo pelos canais da rede para todo o país. Dessa forma, o discurso interrompeu o Fantástico, um dos principais programas no domingo da TV Globo. Com a transmissão ao vivo, o inesperado “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo” durante o discurso foi ao ar, sem possibilidade de corte pela emissora.

A experiência de escuta do refrão – que entoa o apelo contra a manipulação da informação pela Rede Globo – mediada pela própria emissora se torna acontecimento e passa a constituir a nossa memória coletiva, ou melhor, torna-se mais uma camada de sentido ao refrão brizolista da década de 80.

Gritos de protesto, canções populares e hinos são comumente performados em manifestações populares. Se os acontecimentos são componentes importantes para a organização da experiência, os textos sonoros enredados em tais acontecimentos permite, portanto, a experiência de um tempo passado, cristalizada por tais textos, no tempo presente. Os textos sonoros podem acolher ou mimetizar acontecimentos diversos e em cada escuta promove uma experiência da experiência, ou uma experiência em segundo grau que pode se tornar um acontecimento. Sendo assim, acrescenta nova camada de sentido às experiências evocadas pelos textos sonoros. Certamente, ao ouvir “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo” em acontecimentos futuros, rememoraremos as experiências anteriores de uso do refrão, mas também aquele dia histórico em que o escutamos por meio da própria Rede Globo.

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Graziela Valadares Gomes de Mello Vianna
Professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG
e pesquisadora do Gris/UFMG



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