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O suicídio está em pauta: 13 Reasons Why e jogo da Baleia Azul forçam mídia a debater o tema

O suicídio é um assunto que atormenta a mente humana há séculos, mas vem sendo tratado como um tabu e mantido na invisibilidade. Nas últimas semanas, contudo, a situação mudou: a série da Netflix 13 Reasons Why gerou discussões nas redes sociais, enquanto um jogo que incentiva o autoextermínio chegava às manchetes de jornais. Esta análise olha para a série de ficção como um acontecimento, que gera um debate público e abre possibilidades para o tratamento do tema.
Fonte: Netflix

Fonte: Netflix

Um jogo que consiste em 50 desafios, sendo o último deles o suicídio, ganhou as manchetes nacionais nas últimas semanas. Tudo indica que o Jogo da Baleia Azul foi uma notícia falsa propagada na Rússia, mas que pode ter se tornado verdade com a alta visibilidade da temática do autoextermínio na mídia. Tudo começou com o sucesso da série da Netflix 13 Reasons Why.

A série é uma adaptação do livro de mesmo nome, em que a protagonista Hannah narra as 13 razões que a levaram a se matar. Os motivos derivam de ações de 13 pessoas que, após o suicídio da adolescente, recebem fitas cassetes gravadas por ela relatando tais razões.

Apesar de se passar no ambiente escolar norte-americano, a série não é leve. O personagem Clay, que tinha um envolvimento amoroso com Hannah, é o fio condutor da estória, revelando como o conteúdo das fitas mexe profundamente com quem ficou. Uma intriga que envolve bullying, assédio sexual e estupro culminam na cena do suicídio da menina, que corta os próprios pulsos na banheira de casa e é encontrada pelos pais.

A forma como a narrativa é construída dividiu o público em zonas opostas. Nas redes sociais, há os entusiastas com a série, que trata de um tema pouco explorado pela mídia, deixando muitos potenciais suicidas e seus familiares sem esclarecimentos sobre o problema, que é mundial e cada vez mais forte no Brasil. Do outro lado, há os que se indignaram com 13 Reasons Why, acusando a série de irresponsável e de dramatizar o suicídio, criando uma espécie de contágio que levaria as pessoas a pensarem em se matar.

Em primeiro lugar, é importante ressaltar que o suicídio foi tratado como loucura e motivo de castigo eterno no inferno por muitos séculos. O tema motiva estudiosos, em especial filósofos e sociólogos, desde a Antiguidade. Em 1897, Émile Durkheim publica O Suicídio, no qual contradiz a ideia do contágio e mostra que há uma taxa que se mantém nas comunidades, independentemente do índice de loucura, fazendo disso um traço intrínseco à sociedade humana.

Partindo dessa conclusão, podemos – e devemos – considerar o suicídio um problema de saúde pública que precisa urgentemente de um tratamento adequado na mídia. A história do jornalismo recente nos mostra como o assunto ganha ares de tabu ao longo das últimas décadas. De 1930 a 1950, suicídios eram noticiados abertamente, inclusive como manchetes e com fotos.  Ultimamente, o jornalismo tem se mostrado um pouco mais aberto, especialmente com o boom da série.

Nenhum produto midiático é perfeito. Mas, devemos dar créditos à série por se constituir como um acontecimento que abriu horizontes.  O Centro de Valorização da Vida (CVV) teve um aumento de 100% no número de mensagens e ligações. A maioria dos atendidos cita a trama como um incentivo para falar sobre o tema. Na semana do lançamento da série, internautas levantaram a hashtag #NãoSejaUmPorque, posicionando-se contra a prática de bullying e mostrando o quão prejudiciais são os efeitos desse tipo de violência.

Há, claro, problemas na narrativa, como o tratamento raso sobre as condições psiquiátricas e psicológicas da personagem Hannah ou a culpa imputada no outro pela escolha de se matar. Mas, eles foram apontados e debatidos pelo público deste acontecimento, o que faz dele um propulsor para futuras abordagens. O aparecimento do Jogo da Baleia Azul e supostas mortes também é explicado pelo contexto. Mesmo que tenha sido impulsionado pela série – o que não é comprovado ainda -, ele mostra que há muito mais pessoas com tendência ao suicídio do que pensamos.

Já que o assunto foi finalmente esmiuçado, é hora de a mídia entrar de vez no debate, auxiliando outras instâncias da sociedade que se dedicam a compreender e ajudar quem está precisando de uma mão amiga.

Paulo Basílio
Graduando em Publicidade pela PUC-Minas
Membro do GRIS

Juliana Ferreira
Mestre em Comunicação pelo PPGCOM-UFMG



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