Análise | Celebridades

O último e grande round de Mohamed Ali

Com sua morte, Mohamed Ali é lembrado por uma biografia repleta de combates memoráveis no esporte, mas especialmente fora dos ringues. Ele aparece uma última vez não só pelos acontecimentos de sua vida, mas como um acontecimento por causa da força e carisma que marcaram sua trajetória contra a guerra, o preconceito racial e religioso.

Fonte: www.history.com

Fonte: www.history.com

No dia 3 de Junho de 2016 faleceu o lutador de boxe estadunidense marcante tanto na história do esporte quanto para além do ringue. Sua morte e sua vida reverberaram na grande mídia e nas redes sociais, naturalmente, pela biografia nada comum.

Como de costume, lembramos que acontecimentos descortinam o passado e abrem um horizonte de possibilidades para o futuro. No caso das celebridades, elas aparecem não só pelos acontecimentos, mas muitas vezes como acontecimentos (LANA, SIMÕES, 2011). As atitudes dessas pessoas e, especialmente, o que falamos sobre elas são reveladoras do que se passa em nossa sociedade. A morte do célebre, por sua vez, é um momento muito comum de se “criar” o passado e projetar o futuro. Resgata-se a biografia, principalmente nos discursos midiáticos (SIMÕES, 2014), e também se marca que “nada será como antes”.

Os esportistas se tornam célebres pelo desempenho em suas modalidades e também pelas posturas de sua vida privada. Mohamed Ali chama a atenção público-midiática porque suas falas e atitudes dizem respeito não só ao interesse do público, mas ao que podemos chamar interesse público. Se dentro dos ringues ele alcançou a excelência (especialmente na lendária luta contra George Foreman), fora deles travou seus principais combates: militou contra a discriminação racial sofrida pelos negros (sendo muito próximo a Malcolm X), converteu-se e assumiu o islã em um país majoritariamente cristão, negou-se a guerrear no Vietnã (sendo temporariamente banido do boxe e preso por isso), entre outros feitos. De certa forma, suas questões pessoais disseram respeito a todos nós.

Na ficção, quando Ali salvou a Terra derrotando o Superman, quadrinhos que poderiam ser banais ganharam um “significado político sutil” por conta dos valores encarnados pelo boxeador. Na vida real, autor de frases marcantes (muitas vezes consideradas narcisistas ou controversas, mas perdoáveis por conta do indiscutível talento e carisma), Mohamed Ali também impressionou nos últimos anos pela luta contra a Doença de Alzheimer. Até o último momento, em seu funeral, sacudiu o mundo: desfilou em sua cidade natal (segregacionista) e protagonizou uma cerimônia multirreligiosa, predominantemente islâmica.

Ali com sua morte nos apareceu mais uma vez e agora se vai, deixa de “acontecer”. Nós ficamos aqui, já com saudade do “rei do mundo” e ainda chagados pela intolerância e desrespeito, violentados pelo ódio racial e religioso. O que podemos fazer para mudar essa realidade é tentar seguir os bons exemplos deste acontecimento do século XX. No ringue e fora dele, “baile como uma borboleta, pique como uma abelha”.

 

Referências

SIMÕES, P.; LANA, L. Duas vinculações possíveis entre personalidades e acontecimentos: diferentes modos de atuação na vida pública. In: II Colóquio em Imagem e Sociabilidade. Acontecimento: Reverberações, 2011, Belo Horizonte. Anais do II CIS, 2011.

SIMÕES, P. Da morte à biografia de Mandela: acontecimento, celebridade e problema público. Ciberlegenda (UFF. Online), v. 31, p. 86-98, 2014.

 

Gáudio Bassoli
Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social – UFMG
Pesquisador do Gris

 

Esta análise faz parte do cronograma oficial de análises para o mês de junho, definido em reunião do GrisLab.



Comentários

  1. Luis A Bassoli disse:

    Muito bom o texto. Acrescento uma análise que disse que as frases narcisistas dele seriam referência aos próprios negros, massacrados em sua auto estima, e que poderiam assim pensa: ‘sou belo como ele’!. Creio que vale ressaltar que ele demonstrou na vida o que o levou a maior vitória da história do boxe (‘The Rumble in the Jungle’): na vida, vence não quem sabe bater, mas quem aprende a apanhar…

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