Análise | Vida social, normas e valores

Quanto abandono cabe na história da recém-nascida encontrada em Higienópolis?

Manchetes dos principais meios de comunicação do Brasil noticiaram com destaque: “Bebê é abandonado em sacola em Higienópolis”. Dias depois, as notícias relatam a identificação da responsável pelo abandono: a mãe da criança ainda recém-nascida. Na análise a seguir, discutem-se os movimentos realizados pela imprensa na cobertura e compreensão dessa história.

Sacola em que a criança recém-nascida foi abandonada. Fonte: Veja (Online)

Sacola em que a criança recém-nascida foi abandonada. Fonte: Veja (Online)

Em outubro deste ano, o abandono de um bebê recém-nascido numa calçada em Higienópolis, bairro nobre de São Paulo, repercutiu na imprensa brasileira. Na noite de domingo, 4/10, a menina foi encontrada dentro de uma sacola deixada ao lado de uma árvore. Na quarta-feira, dia 7, o caso volta ao noticiário: a polícia encontrou a mãe da menina, apontada como a responsável pelo abandono.

Em linhas gerais, as notícias dão conta de que a mãe, Sandra Queiroz, empregada doméstica de 37 anos, havia escondido a gravidez dos patrões e deu à luz sozinha, no banheiro do quarto de empregada do apartamento em que trabalha. Sandra teria conhecido o pai da criança num forró e não teria o contato dele para avisar da gestação. As notícias se limitam a dizer que a mulher tinha medo de perder o emprego caso os patrões soubessem da gravidez.

Em tempos de “Que horas ela volta?”, filme sobre a história da nordestina Val, que trabalha como doméstica numa mansão em São Paulo, o caso de Sandra, sua gestação, parto e “abandono” escancaram novamente abismos que cabem debaixo de um mesmo teto.

O que chama atenção da imprensa e transforma a história em notícia é a ruptura de uma expectativa. Um bebê recém-nascido demanda muitos cuidados e a principal responsável por fazê-lo é a mãe, de quem se espera nada menos do que amor incondicional pelo filho. Para a maior parte dos veículos, o “abandono” do bebê é o primeiro fator que desperta interesse, e a localização da mãe, que também é a agressora, seria suficiente para encerrar a história. Na delegacia, Sandra é inquirida não apenas pelo delegado, mas por profissionais da imprensa que se acotovelam para capturar sua imagem, como uma forma de puni-la: agora o mundo poderia ver a autora de tamanha covardia. “Por que você abandonou a criança?”, perguntam os repórteres. “Desespero”, responde Sandra.

Muitos dos relatos jornalísticos sobre o caso não procuram compreender ou se solidarizar à história de Sandra. No entanto, vale ressaltar que textos publicados em El País (nesse caso com reportagem e coluna), Folha de S. Paulo e Veja demonstram mais interesse em compreender aquele acontecimento e o contexto para o qual ele aponta.

Na madrugada, Sandra fez o próprio parto, foi ela mesma quem cortou o cordão umbilical, limpou e amamentou a filha. Imigrante de Vitória da Conquista, na Bahia, Sandra temia perder o emprego se falasse da gravidez. Em São Paulo, ela vive com uma filha de três anos. O primeiro filho, um adolescente de 17 anos, está distante, ficou com os avós, na Bahia.

Depois que os patrões saíram de casa, menos de 24 horas após o parto, Sandra enrolou a recém-nascida e a colocou numa sacola. Caminhou bastante tempo pelo bairro e decidiu deixar a filha na calçada. Mas ela não foi embora. Esperou até que alguém notasse a presença da criança e prestasse socorro.

Um olhar um pouco mais atento talvez percebesse que o “abandono” relatado nas manchetes é mais complexo do que se pode supor. Nunca poderemos mensurar a angústia da gestação escondida e conciliada com o peso do trabalho doméstico, a experiência de um parto solitário – teria a filha de três anos presenciado algo, visto a irmã bebê? – a agonia que sentiu ao perambular pelas ruas do bairro até que, por fim, decidiu por deixar a filha na calçada. Qual o significado e os impactos daquele gesto sobre sua vida? Por que, para os veículos de imprensa, é tão difícil se solidarizar com o desespero de Sandra?

 

Eliziane Lara
Mestre em Comunicação Social pelo PPGCOM-UFMG

Esta análise faz parte do cronograma oficial de análises para o mês de novembro, definido em reunião do Grislab.



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