Análise | Televisão

Um suspiro para a teledramaturgia da Globo

Além do Tempo: um acontecimento ficcional que reanimou o público

Em meio aos insucessos das últimas novelas de seu horário nobre, a Rede Globo se surpreendeu com a grande aceitação da trama das 18h, Além do Tempo. Um acontecimento no desenrolar da história, a virada do século XIX para os dias de hoje, extrapolou para fora das telas e mostrou que, mesmo com as mudanças no modo de assistir à TV, ainda é possível cativar um grande público.

Cena do último episódio antes da mudança de fases em Além do Tempo. Fonte: Diário 24 Horas

Cena do último episódio antes da mudança de fases em Além do Tempo. Fonte: Diário 24 Horas

Em meio a sequenciais quedas de audiência em suas novelas, a Rede Globo viu uma de suas produções bater recordes de público em um horário que não é nobre. Um grande acontecimento da ficção das 18h, Além do Tempo, ganhou proporções fora da tela e se configurou como um acontecimento existencial, como diz Quéré, o momento em que a experiência imediata se impõe. A virada do folhetim do século XIX para os dias atuais parou grande parte do país e as redes sociais. O fim da trama, que se passava há mais de 150 anos, e a continuação, no mesmo capítulo, da história dos personagens reencarnados em 2015 foi o tema mais comentado do Twitter no país. Os índices de audiência também surpreenderam. Enquanto a novela das 21h, carro-chefe da emissora, vem alcançando péssimos índices no ibope e perdendo para a produção bíblica da Rede Record, Os Dez Mandamentos, a novela da 18h alcançou 30 pontos de média no Rio de Janeiro. A pontuação a coloca entre as mais bem sucedidas da história da Globo.

O que explica esse sucesso estrondoso de Além do Tempo em um momento em que a Globo perde espectadores para os concorrentes da TV aberta, além de enfrentar a programação das TVs por assinatura e os serviços de streaming, como a Netflix? Bem, primeiro, é preciso explicar a trama. Lívia, uma ex-noviça, e Felipe, um conde, se apaixonam em uma cidade fictícia do sul do país, em pleno século XIX, onde enfrentam dois vilões para viver o amor eterno. Sem falar na condessa, mulher de personalidade e autoridade, que tentou matar a mãe da mocinha e acabou causando o acidente do próprio filho. A história, rocambolesca, com ares de romantismo, típico folhetim, conquistou o público. Podemos citar como causa do sucesso a ousada ideia de fazer duas novelas em uma, já que os mesmos personagens vivem tramas distintas em dois momentos históricos diferentes. Isso, no entanto, não é suficiente para explicar o afeiçoamento, que não era esperado nem mesmo pela emissora.

O acontecimento que se tornou a virada de tempo na novela afetou o público, que ansiava por aquela experiência. Como os protagonistas, mortos pelos vilões, se unirão na vida seguinte? Além da passibilidade, tal acontecimento ilumina um contexto que muitos especialistas em novela vêm tentando entender: por que a audiência das telenovelas está caindo? Será que o público deseja algo além do que está sendo oferecido. A produção das 21h, por exemplo, não é alavancada desde o sucesso de Avenida Brasil. Podemos citar, em Além do Tempo, a marcação clara entre mocinhos e vilões, uma sinopse marcada pelo amor eterno e seus percalços, além do tema da espiritualidade, que vem sendo tratado de diferentes formas pela Globo. A última novela que apostou na temática, Alto Astral, da faixa das 19h, também teve boas respostas do público.

Colunistas de televisão defendem que o telespectador está cansado da novela que imita a realidade, como as últimas três produções do horário nobre. Que ele quer mergulhar na fantasia, assistir a temas mais leves. Talvez, Além do Tempo tenha se tornado um acontecimento devido a um conjunto harmonioso de características – texto, elenco e trama – que privilegiou o amor romântico. Como percebeu Simões (2004), há uma “perpetuação de traços do amor romântico em nossa sociedade: a visão idealizada desse sentimento e o desejo de conquistar um parceiro para construir uma narrativa biográfica mútua duradoura permanecem no imaginário amoroso contemporâneo” (p. 208).

 

Juliana Ferreira
Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UFMG
Pesquisadora do Gris

 

Esta análise foi escrita a partir de sugestão da autora.



Comentários

  1. Juliana da Silva Ferreira disse:

    Van e Gilvan, agradeço pelos comentários e acréscimos!

  2. Vanrochris Vieira disse:

    Excelente análise. Quando se fala em preferir assistir uma telenovela a um seriado, por exemplo, fala-se em gênero. O que a telenovela traz que o seriado não traz? Qual é o seu diferencial? Nesse sentido, o público da telenovela espera dela características que tradicionalmente a distinguem, como o melodrama e o maniqueísmo. Avenida Brasil, mesmo sendo uma trama realista, tinha tudo isso. As constantes reviravoltas, com mistérios e identidades revelados, parentescos esclarecidos e passados vindo à tona. A maldade fascinante de Carminha opondo-se à moral de Nina. A genialidade do João Emanuel Carneiro nessa novela foi dar novos contornos a esses mesmos elementos, fazendo com que o público se apaixonasse por Carminha e que a moral de Nina se tornasse um conflito interno para ela. Em Além do Tempo, é gostosa a relação de Lívia com Vitória. A neta consegue ver o que há de melhor em sua avó, apesar de suas ações cruéis e egoístas. A virada no tempo, além de um acontecimento inédito na história das telenovelas brasileiras, também traz a oportunidade de todos os personagens melhorarem, tentarem de novo, o que gera uma torcida e uma expectativa imensas.

  3. Gilvan Araújo disse:

    Considero pertinente os apontamentos da autora para o sucesso da trama Além do Tempo, da Rede Globo de Televisão. Contudo, gostaria de acrescentar que a novela trata da reencarnação, uma crença assumida por kardecistas e budistas, mas não aceita pela maioria de católicos brasileiros. O maior sucesso da trama na minha visão, claro, além do ótimo elenco, da história de amor e da boa relação estabelecida na luta do bem contra o mal, clássica nos folhetins, está no fato de que Além do Tempo apresenta o entretenimento em sua forma mais natural e saborosa. Afinal, novela não é só uma mimese da vida real como nos fizeram crer durante os anos de 1990 e 2000. A telenovela é antes de tudo uma narrativa ficcional, que deve nos transportar da realidade dura do cotidiano para um momento de sonho e fantasia. O período conturbado do Brasil, política e economicamente, favorece essa necessidade de desligamento das coisas do mundo real, e dispositivos que nos façam acreditar acreditar no futuro. Pensar que além deste tempo haveremos de encontrar novas oportunidades, realizações e quem sabe ter a chance de refazer nossas vidas de maneira diferente e melhor.

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