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Caso Janaúba e transtornos mentais: o desprezo e a indiferença

Transtornos mentais não são levadas à sério, pessoas que sofrem de depressão e ansiedade por exemplo, comumente ouvem que isso é frescura, que elas devem se dedicar mais e que precisam de uma louça para lavar. O trabalho do psicólogo por muitos é desvalorizado, o que nos mostra o quanto o país ainda precisa evoluir na compreensão do que é e do quão sério pode ser um transtorno mental. Tragédias como as de Janaúba podem ser evitadas.

Nuvem de tags. Fonte: pgl.gal

Recentemente, o Brasil ficou comovido com o incêndio em uma creche em Janaúba/MG, que matou pelo menos dez pessoas, sendo oito crianças. O incêndio foi provocado pelo vigia Damião Soares dos Santos, um idoso que demonstrava problemas mentais há três anos.

Doenças implícitas não são levadas à sério. Pessoas que sofrem de depressão e ansiedade por exemplo, comumente ouvem que isso é frescura, que elas devem se dedicar mais e que precisam de uma louça para lavar. O trabalho do psicólogo por muitos é desvalorizado, e termos como “não vou gastar dinheiro para bater papo”, “psicólogo não faz nada”, nos mostra o quanto o país ainda precisa evoluir na compreensão do que é e do quão sério pode ser um problema mental. Não bastasse tudo isso, os recentes problemas econômicos, políticos e sociais também não favorecem quem sofre transtornos.

Damião é descrito como um senhor educado, humilde e gentil. Vendia picolés que ele mesmo fazia, e muitas vezes deixava as crianças comprarem fiado, por não ter dinheiro para pagar. Com a morte do pai há três anos começou a apresentar sinais de “loucuras”, já que vivia falando que estava sendo envenenado pela mãe. Chegou a ir no MP denunciá-la, mas os servidores alegaram que era mentira. Nos últimos dois anos se isolou completamente da família e dos amigos.

Após o ataque, a Polícia Civil alegou que ele sofria de Transtorno Persecutório, ou seja, um transtorno delirante cujos sintomas são: “a pessoa acredita que ela (ou alguém próximo a ela) está sendo maltratado, ou que alguém está espionando-o ou planejando prejudicá-lo. Não é incomum para as pessoas com este tipo de transtorno delirante fazer repetidas queixas às autoridades legais.”

Se os transtornos mentais fossem levados devidamente à sério, talvez Damião pudesse ter sido diagnosticado a tempo, e a tragédia evitada. Em um contexto em que o debate sobre transtornos mentais como depressão, ansiedade, TEPT, TOC, entre outros, está em tanta evidência, julgamentos como “Psicopata”, “Covarde” e “Desgraçado” impedem a compreensão de que Damião estava doente, e incapaz de julgar seus atos.

Fica aqui a pergunta: até quando tragédias fatais serão necessárias para que os transtornos psicológicos sejam levados à sério?

Laura Queiroga
Graduanda em Comunicação Social pela PUC-Minas



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